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sábado, 21 de janeiro de 2017

Daquelas coisas...

Uma publicação Facebokiana em que alguém felicita a sua antiga Escola Primária pelos 20 anos de existência. O texto é um agradecimento sentido por tudo aquilo que a escola lhe ensinou, numa caminhada que se iniciou "à 20 anos...". Só que na escola, aparentemente, não havia a letra "H".



Por estas bandas, muito trabalhinho, que vida de Interno é mesmo assim e vocês, meus estimados leitores, com certeza me perdoam pela ausência. Há trabalhos para fazer e muito que estudar. No fundo, é voltar quase ao tempo de faculdade, mas sem propinas e sem semana académica.



Inté*

Não me esqueço de vocês!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Então?...

Contem-me coisas: como correram os primeiros dois dias do ano? Ainda se mantêm as boas resoluções? Já lá vão 48h! Estatisticamente, 50% das resoluções já foram ao ar...

Quanto a mim, tive hoje o meu primeiro dia no meu serviço. O ano de estágio em Medicina Interna passou a correr! E fico contente por já estar na minha especialidade, propriamente dita.
Ainda assim, devo dizer-vos que depois de um ano de rotinas, "cair" assim noutro serviço com uma organização completamente diferente é bastante estranho... mas com calma, a coisa vai.

Não tenho muitas mais novidades para vos contar além de que, talvez numa tentativa de compensar tudo o que eu comi no Natal, o meu corpo decidiu brindar-me com uma rinite e a associada falta de paladar de forma que, a comida não me sabe rigorosamente a nada... talvez ele acredite que desta maneira me vai fazer ingerir menos calorias...



Inté*


domingo, 23 de outubro de 2016

A impulsividade é uma coisa muito bonita...

Durante a nossa formação enquanto Internos, para além do trabalho hospitalar propriamente dito, é necessário fazer outro tipo de trabalhos, nomeadamente, escrever artigos, fazer posters, fazer apresentações orais... e por aí fora. No nosso hospital, as apresentações de casos clínicos são feitas, geralmente, às 6ª-feiras de manhã. 

Tenho um colega que tem apresentado casos muito complexos e, infelizmente, os casos com que nos tem brindado são de doentes com patologias graves, que acabaram por falecer. Ora, na passada 6ª-feira, o meu colega fez uma nova apresentação. Fiz figas para que desta vez, tudo acabasse bem. Estava esperançosa de que, apesar do mau prognóstico que se adivinhava à medida que ele expunha o desenrolar da história, o doente ainda estivesse vivo. Mal (a menos que tivesse havido um milagre!), mas vivo. Infelizmente, esta minha esperança não se concretizou. No momento em que o colega nos diz que "o doente acabou por falecer", tudo em mim foi desilusão e revolta (Grrr! Outra vez?!) e, no silêncio da sala onde se encontrava a maior parte do staff médico do Serviço, Estudante bate com o punho cerrado na cadeira e exclama: FOGO!

Um "fogo" que exprimiu toda a minha frustração e desilusão por ver que, mais uma vez, a história tinha acabado mal. Foi uma gargalhada geral, como seria de esperar. Mas que hei-de eu fazer, foi mais forte que eu... saiu-me!

Na tentativa vã de explicar o ultraje que senti, argumentei: as Histórias não acabam assim! Nas Histórias de verdade, as pessoas não morrem...



Inté* 


Uma adenda: os casos são apresentados de forma anónima, isto é, a plateia não tem conhecimento da identidade do doente. Neste tipo de exposições orais, os casos clínicos servem apenas como uma introdução para uma revisão teórica posterior ;)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

É bem sabido que a maioria das pessoas que recorre a uma Urgência Geral (às Urgências normais, portanto) pertence à faixa etária dos 60 anos para cima. Há dias, inclusivamente, em que a pessoa mais nova que vejo, tem acima de 80 anos. E, bem vistas as coisas, ainda bem! A doença nunca é uma coisa "normal" mas, a doença nas pessoas mais jovens é mais anti-natura do que nas mais velhas (não sei se me estou a fazer entender).

O nosso Serviço de Urgência tem um corredor que dá acesso à Urgência Pediátrica. De vez em quando, por entre as macas, os doentes grandes, os enfermeiros e os médicos que se encontram no corredor principal da Urgência Geral, lá se avista uma pessoa mais pequenina (tão grande na sua alegria e futuro!), a caminho da saída. Eu acho que mal te vêem, sabes, meu pequenino? Os grandes andam ali a correr de um lado para o outro, a levar remédios, a trazer remédios, a ouvir pulmões, a ouvir corações... desculpa-nos lá esta azáfama. É quase criminoso não parar um segundo para atentar na cauda de cor que deixas atrás de ti quando passas por nós; a Urgência até fica mais bonita! Mas só quando já estás de saída!

Na minha última Urgência, lá ao fundo no corredor, vinha um menino de mãos dadas com o pai. Vinha contente (o Sr. Doutor e o papá fizeram um bom trabalho!). Foi uma alegria ver-te ali...  




Inté*

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A desforra

São duas da manhã e eu estou aqui entretida a comer bolachas de milho. As Urgências tiram-me o sono e fazem-me fome pelo que, quando Estudante chega a casa depois do dia de Urgência, apesar do adiantado da hora, não consegue dormir. Então, dá uma espreitadela no blogue, dá uma espreitadela no email, come umas bolachinhas (as de milho... essas desensabidas... o que me consolava agora eram umas bolachas a sério, com chocolate, e não esta esferovite disfarçada. Mas vá, diz que estas são saudáveis. Bah).

Hoje chamaram-me Doutorinha. Não sei exactamente o que isso quer dizer, mas foi dito de uma forma meiga e eu achei simpático. "Doutora" soa-me mal e se fosse "Doutoreca" ainda pior. Mas Doutorinha parece-me um termo adequado para um projecto de médica, ainda em fase de construção.


Inté*

domingo, 4 de setembro de 2016

A propósito...

... deste post:

Como já devem reparar, eu sobrevivi ao querido mês de Agosto! Yeaahhh!

E só faltam (mais coisa, menos coisa) 4 meses para eu ir, finalmente!, para o meu Serviço. Antes, porém, antevê-se uma mudança de casa algures pelo caminho e, a bem dizer, acho que ainda estou um bocado traumatizada com os caixotes da primeira...

Mas não há-se ser nada, não é verdade? Afinal, eu sobrevivi ao mês de Agosto, caramba!


Inté*

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Sem floreados

Todos os dias há doentes que têm alta e que não regressam a casa porque o cuidador (familiar ou outro) se recusa a levar o doente para casa (e não me refiro a situações em que não existem condições para acolher o doente...). Por mais que lhes seja explicado que o doente não cumpre critérios para ser reencaminhado para unidade de convalescença ou unidade de cuidados integrados, insistem que não o levam. E pronto. E fazem-no porque sabem que nós não vamos pegar no doente e pô-lo à porta. Ficamos então encarregues de procurar algum local que possa acolher o doente. Enquanto isso, temos uma cama inutilmente ocupada que poderia servir a alguém que realmente necessita de cuidados hospitalares; enquanto isso, são dias e dias (às vezes, semanas!) de internamento, com todos os custos associados, sem qualquer necessidade. As despesas em saúde são muito elevadas? Não compreendo porquê... E enquanto isto, os cuidadores permanecem completamente impunes e sem qualquer tipo de consequência perante uma atitude de abandono.

O abandono de doentes idosos é muito, muito frequente. Mas não tem tanto impacto em nós enquanto sociedade como tem o abandono dos animais. Nem causa tanto impacto como causaria o facto de, se de repente, os pais começassem a abandonar os filhos a torto e a direito nas enfermarias de Pediatria. O abandono dos idosos não tem este impacto porque são velhos. São pessoas que já foram esquecidas, que são um peso, um incómodo... é bem patente neste tipo de situações o desprezo que damos às pessoas da terceira idade.

Portanto, e para terminar, nós vivemos num país que pode punir com pena de prisão quem abandona um animal de companhia (e muito bem!), mas que não criminaliza o abandono de idosos nos hospitais e não cria meios de ajuda para quem não os quer abandonar. 

Perfeito.



Inté*

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Vou cortar um dedo!

Minha gente, há por aqui uma equipa de Cirurgia que é coisinha para alegrar a vista.

Estou capaz de cortar um dedinho.
O mindinho, vá. Só assim um corte de três pontinhos...



Inté*

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Meu querido mês de Agosto

O mês de Agosto é, por tradição, o mês das férias. Grande parte das pessoas está neste momento a relaxar algures sob um Sol estupendo e ao som das marés. Mas isso significa também que o pessoal no serviço está reduzido e que aqueles que asseguram o bom funcionamento das instituições se vêem um pouco mais sobrecarregados do que o normal.

Trabalhar em Agosto é então difícil por dois motivos: porque vemos a malta toda a ir de férias e porque temos mais trabalho.

Assim, "Meu querido mês de Agosto" é o nome de código desta missão que é trabalhar com menos colegas, com muito mais doentes (a população aumenta bastante com os emigrantes que voltam a casa e com os turistas) e com muito mais calor. Objectivo: sobreviver mais duas semanas.

Mais duas semanas para eu poder envergar uma medalha de honra com a inscrição: eu sobrevivi ao querido mês de Agosto.



Inté*

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Fim-de-semana graaande!

Fim-de-semana prolongado e a Estudante está de Urgência no Sábado.

Olhando para o calendário, e tendo em conta que as escalas de urgência são rotativas e que portanto, é possível prever os dias de serviço de urgência até ao final do ano, estive e vou estar a trabalhar em praticamente todos os fins de semana prolongados ou fins-de-semana com possibilidade de ponte.

É assim a viola.


Inté*

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Ai as Urgências

Nesta altura do ano, as urgências são caóticas. Há muitas infecções respiratórias, hipotermias e afins. Os internamentos estão cheios, não há onde internar os doentes e as macas acumulam-se nos corredores. Às vezes, falta a paciência de quem trabalha mas, sobretudo, falta a paciência de quem está a ser atendido. De vez em quando, lá aparece o personagem agoirento que gosta de lançar uns bitaites em voz alta, só para deitar umas achas na fogueira (que já está pouco quente...). "Isto é uma pouca vergonha!", "Onde é que já se viu?", bla bla bla... e de repente, uma onda de indignação percorre os restantes doentes, que passam a não querer pôr a sonda, que subitamente querem ir embora. "Eu vou-me embora!". Penso que dizem isto em tom de ameaça e que o alvo é o médico. Mas o "eu vou-me embora" não tem exactamente esse efeito em nós, acreditem.

Outro fenómeno muito curioso é o doente que chega muito aflito. Ou porque tem dores, ou porque tem falta de ar... e, quando se sente melhor, acha que pode ir andando. Nem precisa do resultado das análises, nem do raio-x, nem de tratamento dirigido à causa, nem de coisa que o valha. Como se tivesse ido ao supermercado comprar "sais de frutos". Não interessa encontrar o que provocou as dores e a falta de ar. O que interessa é que já passou e, se por acaso, ficar sem ar outra vez, volta amanhã.
Voltam quando se sentem mal. Porque também há quem seja aconselhado a voltar dali a uma semana para ser reavaliado, para saber o resultado de umas serologias e para ser orientado, e não volte. Sabem o que isto é? Dinheiro de todos nós que foi para o lixo. Para não falar de irresponsabilidade e falta de respeito.

As urgências são também um consultório sentimental. E não digo isto em tom de gracejo. Não é raro que, lá pelo meio da história da dor de costas, haja uma mãe que faleceu há três meses. Ou então, umas "picadas" no peito de uma senhora viúva que se sente sozinha. Metade das vindas às urgências são, eu apostava nesta!, por falta de amor. E metade dos internamentos prolongados são, também apostava nesta!, por falta de amor. Não imaginam como somos pressionados a internar os velhinhos que, em consequência da doença, da idade avançada, ficam acordados de noite e não deixam ninguém dormir; ou precisam constantemente de atenção porque podem cair, porque não comem nem bebem pela mão deles... é incrível a facilidade com que estes doentes são propostos, pelos cuidadores, para ficarem no hospital.

Ao mesmo tempo, não os censuro. Deve ser imensamente cansativo não dormir uma noite inteira durante meses, às vezes, anos!, ou não poder sair de casa porque há alguém totalmente dependente de nós. O nosso sistema tem muitas falhas. E não me refiro só ao sistema de saúde, refiro-me também à componente social, que é cada vez mais decadente.

O dia de urgência é aquele dia em que, por vezes, dou por mim a pensar como deve ser bom ser pedreiro.



Inté*

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Prazeres pequeninos

Ainda fico contente quando faço gasimetrias* à primeira. Palpar o pulso e sentir a artéria: tum... tum... tum. "Estás aqui!"- penso eu. "Uma picadinha, está bem?" "Então não pode? Que remédio!...". Não consigo deixar de achar piada a este tipo de consentimento. Como se não se pudesse dizer que não... 

"Então cá vai". Fico muito quietinha a olhar para a seringa à espera que o sangue suba. Muito quietinha na esperança de que a artéria não me fuja e eu tenha de picar outra vez! "Vá lá, sobe, sobe, sobe!". Se os doentes soubessem as orações mentais que eu faço antes de os picar e nos segundos imediatamente à picada... iam achar que era doida.


E eis que, vejo o sangue a subir, um sangue roubado à circulação arterial; vem por ali enganado com a força com que deveria seguir pela mão até às pontas dos dedos. Que alegria tão grande, que alívio! "Pronto, já passou".

E aí vai ela de seringuinha na mão, com um orgulho que guarda só para si. "Consegui, consegui!".


Outras vezes, começa tudo muito bem, com o sangue a subir, e o estupor pára a meio. "'Tão? Onde é que te meteste?". E continuo a sentir o pulso, por isso a artéria fugiu, mas não para muito longe. "Tens de estar aqui algures, sua..." E quantos nomes eu lhe chamo! Acho que é por isso que às vezes já não a volto a apanhar... Sensíveis, estas maricas.





Inté*


*uma picadinha que, mais frequentemente, se faz na artéria radial (no punho) e que permite avaliar O2, CO2 e equilíbrio ácido-base.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Dia de Urgência

Acabado o turno do dia de urgência, guarda-se o estetoscópio, pendura-se a bata. Um gesto simbólico do cair do pano do dia que acabou. Analogia merecida, dadas as cenas - umas mais dramáticas que outras... - a que tantas vezes assistimos (e de que somos protagonistas, também). 
Se conseguíssemos espreitar por detrás da bata pendurada, quantas histórias veríamos das horas que ali passámos; quantos olhares ali ficaram presos; agradecimentos; frustrações... Às vezes, acho que ao despi-la, deixo cair algumas destas histórias. Quantas coisas se perdem no fim daquele dia. Pobre bata. Mais pobre de quem precisa de alguém que a carregue.

Acabado o turno, cai o pano, mas só para alguns. Uma porta é o limite entre o Serviço de Urgência e o mundo corriqueiro. E como custa a acreditar que apesar da doença ali dentro, a vida segue lá fora! Que enquanto eu entro no carro para voltar para casa, há quem fique lá atrás; há quem já não conheça outra moradia. 
É um pensamento egoísta este de pensarmos que a nossa morte é o fim de tudo. Nós morremos e não há uma folha que deixe de cair, uma noite que não venha... tudo fica na mesma. Nós somos mesmo pequeninos.


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Alberto Caeiro



Inté*

sábado, 26 de setembro de 2015

Na Enfermaria há Passarinhos

Medicina Interna é, como eu costumo dizer, a especialidade dos médicos a sério. São, muito provavelmente, os médicos que mais sabem e aqueles que têm sempre presente a visão holística do doente. São eles os que melhor fazem o diagnóstico diferencial das diversas patologias e por isso, são também os mais astutos no estudo dos pacientes. Chegado alguém às mãos do médico de Medicina Interna, não há hipótese diagnóstica que ele não coloque!

Contudo, Medicina Interna é também uma das especialidades menos reconhecidas, a par com Medicina Geral e Familiar (os conhecidos "Médicos de Família"). Geralmente, a enfermaria de Medicina Interna recebe muitos dos casos que as outras especialidades não conseguem acompanhar, casos em que muito pouco há a fazer. Não admira por isso, que a média de idades no serviço deva rondar os 70 aninhos de idade.

Muitos dos doentes que vejo na enfermaria de Medicina são, efectivamente, passarinhos caídos de anos passados, pequeninos sopros de vida, últimas gotas de uma existência que quase já não é. Alguns só me seguem com os olhos, sem dizerem uma palavra; não sei se resignados com o que o final da vida não lhes traz, se habitantes de uma realidade paralela à minha. Ainda assim, à medida que os examino, vou falando com eles - palavras que provavelmente caem num poço, algures numa consciência que cada vez o é menos. 

No final da visita, ainda sem resposta aos meus bons dias e às minhas perguntas, ali ficam, cobertos por um lençol que, pela brancura, se assemelha a duas grandes asas onde ficam recolhidos até uma próxima vez.



Inté*

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Prognósticos

Caros doentes, apesar da minha incipiente prática clínica, há sinais e comportamentos que por vezes detecto nas vossas pessoas que me alertam para o facto de algo grave poder estar a acontecer convosco.

Dizerem-me que sou "uma menina muito linda" ou que tenho "uns olhos muito bonitos", meus amigos, ui ui... vocês dizem isso e a primeira coisa que assola esta cabecinha é um:

"Epáaaaa, estás bonito(a), estás... não há dúvida de que precisas ficar internado(a)".


Inté*

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

E lá se foi Cirurgia...

Hoje foi o último dia da minha passagem pelo Serviço de Cirurgia. Dois mesinhos passados sob a "ordem do bisturi". Foi uma surpresa agradável, na verdade. Cirurgia e eu nunca fomos melhores amigas, mas parece que, finalmente, estabelecemos uma relação um pouquinho mais amistosa.

Cirurgia é, certamente, um serviço muito peculiar:
- aprendemos a falar de todo o tipo de gosmas e fluidos corporais mesmo às refeições, e sem vomitar;
- aprendemos a ficar de pé no Bloco Operatório durante várias horas e à base de sumos e bolachas-maria;
- aprendemos a torcer para que apareça alguém na urgência com uma feridinha para suturar;
- aprendemos a palpar barrigas e a perguntar a toda a gente se já "fez cocó";
- aprendemos a trocar de roupa em 30 segundos.

E é assim.

E uma das maiores alegrias que levo deste estágio é o meu pequeno histórico de suturas: um pescoço, uma testa, um abdómen e uma perna. YEAAAAH! 

Agora, venha de lá Medicina Interna ;)



Inté*

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pequerruchos, pequerruchos...

Hoje foi dia de Saúde Infantil. Não me livrei de uma birra daquelas mas, miraculosamente, e graças a uma manobra tipo "Matrix", lá me escapei de um xixi. Sim, porque a regra de ouro durante o exame de um bebé, é que a fralda é a última coisa a tirar! Mas às vezes, as mamãs despem os piolhinhos por inteiro e nós já não vamos a tempo de evitar o chafariz. Foi mais ou menos o que aconteceu hoje. Quando dei conta, já o rapazinho estava a pintar a parede... Mas não me acertou. YEAAAH! Estudante: 1 - Pilinha desgovernada: 0.
 
 
Por último, vi uma menina com 9 mezinhos de existência que era uma ternurinha. Riu-se durante todo o exame e, a certa altura, levantou o dedinho, muito pequenino, para me tocar o nariz. Aquela mãozinha pequenina e rechonchuda na minha direcção, muito devagarinho, sob o comando atento de uns grandes e brilhantes olhos pretos, pousou em mim, como uma borboletinha primaveril. Tão delicadinha e suave!
 
Já tinha saudades destas borboletas.
 
 
 
Inté*
 


terça-feira, 7 de abril de 2015

Tcharan!...

E os vencedores são aqueles que palpitaram... Amesterdão!
 
Uma cidade muito bonita, com uma curiosa simbiose entre o religioso e o profano, cheia de peculiaridades, de história... e de água também. Água nos canais e muita chuvinha. Mesmo assim, visitámos praticamente tudo aquilo que tínhamos planeado e foi uma experiência diferente. Ficou a vontade de conhecer outras cidades e países. A minha lista inclui a Grécia, a Irlanda, a região da Toscana na Itália e, aqui mais pertinho, os Açores. Paris também é um destino a considerar, mas Paris não é para visitar com qualquer pessoa, não é? ;)
 
Já agora, deixem-me dizer-vos que comecei esta semana a minha passagem por Medicina Geral e Familiar. O meu tutor tem o hábito de fazer as citologias ao som do Tony Carreira. Diz ele que é para quebrar o gelo. Afinal, fazer citologia não é nada muito agradável e geralmente, as senhoras ficam bastante ansiosas. Ainda assim, tenho a certeza de que se fosse eu a doente, Tony Carreira não iria ajudar... antes pelo contrário. Blherk...
 
 
 
Inté*

domingo, 22 de março de 2015

Os meninos de pedopsiquiatria

As florinhas de Pedopsiquiatria são, na sua maioria, florinhas que um dia alguém semeou mas não quis colher. Foram sementinhas negligenciadas, algumas crescidas em terrenos pouco férteis, outras não desejadas, acabando por brotar ali por acidente, como se o vento as tivesse trazido sem consentimento. Ainda assim, quando eu as encontro na consulta, algumas claramente pouco regadas de carinho, com algumas folhinhas por aparar, são tão bonitas como todas as outras florinhas que eu vou encontrando pelo caminho.
 
Eu trazia-vos para casa, sabiam? Não é que as minhas capacidades de jardineira sejam extraordinárias, mas eu acho que juntos poderíamos fazer um lindo jardim. Faltam borboletas no vosso jardim; e joaninhas, e baloiços... faltam meninos a rebolar na relva e fontes de água fresca.
 
Eu trazia-vos para casa para vos mostrar que depois da chuva vêm os arco-íris e a erva verdejante.
 
 
Inté*
 
 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dizer a um doente que não há nada a fazer contra o cancro que o escolheu como vítima. Dizer-lhe que a doença está a avançar mais depressa do que os dias e que, até poderíamos tentar a quimio, mas que o melhor seria tratar os sintomas paliativamente e esperar... e ainda assim, termos a perfeita noção de que há uma parte daquela pessoa que temos à nossa frente que não compreende ou não quer acreditar no que está a ouvir. Então, questiona-nos acerca de cirurgias, de tratamentos que não a vão salvar... questiona tão sofregamente, tão alheia a tudo o que lhe está a ser dito, completamente inebriada pela esperança ou por um instinto primitivo de sobrevivência.
A certa altura, não consegui perceber se estava na presença de alguém na posse plena das suas capacidades ou na presença de um bichinho ferido que tentava, a todo o custo, fugir para longe...
 
Como nós ficamos diferentes quando temos a noção da nossa finitude. Julgamos ter plena consciência de que um dia nos vamos embora e que não vamos passar de uma história que um dia será esquecida... mas não é verdade. Nós vivemos com essa pequena sombra que paira sobre nós, mas que é tão discreta que, provavelmente, na maior parte das vezes nem nos damos conta da sua presença (e ainda bem que assim é!).
Enquanto vivemos somos eternos; somos um passado, um presente e, sobretudo, somos um futuro, um amontoado de sonhos e de desejos por realizar. Não imagino dor maior do que aquela de não poder planear a longo prazo, de saber que vamos ter menos tempo do que aquele que tínhamos previsto...
 
Como as coisas seriam diferentes se soubéssemos que expirávamos dentro de alguns meses. Eu tenho perfeita noção de que faria imensas coisas de forma diferente e, ainda assim, não sei se isso implicaria fazê-las de melhor forma; mas faria de forma diferente.
 
 
 
 
Inté*