domingo, 23 de outubro de 2016

Remendos

Cá em casa há uma caixa de costura porque é preciso remendar as coisas. Cosem-se buraquinhos, pregam-se botões, recose-se o que, por algum motivo, se descoseu. Há sempre aquela tentativa de substituir o "velho" e o "gasto" por outras peças novinhas em folha, sem retoques, sem cicatrizes. Mas o remendado não deixa de ter um certo encanto, não acham? Há qualquer coisa ali que nos remete para o passar do tempo, para uma história... que nos recorda a resiliência perante as adversidades que vão deixando pequenos buracos e imperfeições.
Ao fim e ao cabo, até nós sofremos alguns remendos ao longo da vida - mal de nós se assim não fosse! Vivermos até à morte tal como viemos a este Mundo, imutáveis, sem uma correcção, sem uma mudança de rumo. Quando as pessoas batem à porta dos nossos dias, trazem com elas todos os seus remendos: memórias, cicatrizes, traços que são só delas. E são mais bonitas, por dentro e por fora, se forem assim, com histórias por contar. Tão bom quando juntamos remendos!...



Inté*

PS: vocês são mesmo boas pessoas... o meu post anterior não deixa de estar revestido por alguma ironia e exagero, inerentes a qualquer caricatura. O episódio que vos descrevi, foi um episódio caricato e que nos valeu valentes gargalhadas, mas vocês focaram essencialmente, o lado sério da coisa. A "revolta" que mencionei não é por acaso que está em itálico; não nos podemos revoltar sempre quando as coisas correm mal, se seguem o esperado e expectável. Por vezes, a expectativa desmedida e a esperança irreal são mais prejudiciais do que benéficas. Já aprendi a não me revoltar tantas vezes e a aceitar em Paz o rumo de muitas coisas.

A impulsividade é uma coisa muito bonita...

Durante a nossa formação enquanto Internos, para além do trabalho hospitalar propriamente dito, é necessário fazer outro tipo de trabalhos, nomeadamente, escrever artigos, fazer posters, fazer apresentações orais... e por aí fora. No nosso hospital, as apresentações de casos clínicos são feitas, geralmente, às 6ª-feiras de manhã. 

Tenho um colega que tem apresentado casos muito complexos e, infelizmente, os casos com que nos tem brindado são de doentes com patologias graves, que acabaram por falecer. Ora, na passada 6ª-feira, o meu colega fez uma nova apresentação. Fiz figas para que desta vez, tudo acabasse bem. Estava esperançosa de que, apesar do mau prognóstico que se adivinhava à medida que ele expunha o desenrolar da história, o doente ainda estivesse vivo. Mal (a menos que tivesse havido um milagre!), mas vivo. Infelizmente, esta minha esperança não se concretizou. No momento em que o colega nos diz que "o doente acabou por falecer", tudo em mim foi desilusão e revolta (Grrr! Outra vez?!) e, no silêncio da sala onde se encontrava a maior parte do staff médico do Serviço, Estudante bate com o punho cerrado na cadeira e exclama: FOGO!

Um "fogo" que exprimiu toda a minha frustração e desilusão por ver que, mais uma vez, a história tinha acabado mal. Foi uma gargalhada geral, como seria de esperar. Mas que hei-de eu fazer, foi mais forte que eu... saiu-me!

Na tentativa vã de explicar o ultraje que senti, argumentei: as Histórias não acabam assim! Nas Histórias de verdade, as pessoas não morrem...



Inté* 


Uma adenda: os casos são apresentados de forma anónima, isto é, a plateia não tem conhecimento da identidade do doente. Neste tipo de exposições orais, os casos clínicos servem apenas como uma introdução para uma revisão teórica posterior ;)

sábado, 22 de outubro de 2016

Race: 10 segundos de Liberdade

E por falar em filmes, este que refiro no título, relata a história de Jesse Owens, com enfoque na sua participação nos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, Jogos esses que a Alemanha Nazi viu como uma oportunidade de propaganda à alegada superioridade da raça Ariana. É um filme que nos toca pelo testemunho de força, perseverança e fair play. Fiquei a admirar Jesse Owens (impossível não admirar este senhor!) mas na minha opinião, a maior bofetada de luva branca foi da responsabilidade de Lutz Long, atleta alemão que, para grande desagrado dos Nazis, estabeleceu uma forte amizade com o seu adversário americano.
Um filme que vale muito a pena!







Inté*

Bons tempos




O difícil era escolher!...


Inté*

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Ideias

Aqui há uns dias, o meu tutor dizia que "as Religiões dividem as pessoas".
Não é uma ideia que eu nunca tenha ouvido, mas é uma afirmação com a qual discordo completamente. As Religiões, no seu âmago, apelam à Paz e à união entre as pessoas. Aquilo que as pessoas fazem com a sua religião, e a forma como a usam para justificar os seus actos, é outra conversa. Quem quiser optar pelo mal, encontra sempre pretextos, mais ou menos estúpidos, para segregar as pessoas: a cor da pele, a língua, o ordenado, a carreira...

Imaginemos as religiões como um amontoado de pedras. Uns, utilizam-nas como armas de arremesso; outros, constroem muros e há quem construa pontes. Onde está o factor de variabilidade? Nas pedras?...




Inté*

Ter o peso de um tamboril

No Verão passado, a Manhê e o Beau-père estiveram cá em casa a passar uns dias. Manhê gosta muito de cozinhar, vocês já sabem, e gosta de cozinhar com bons ingredientes, pelo que o peixinho confeccionado cá em casa, foi sempre peixinho fresco comprado ao peixeiro (de seu nome Adão), que tem o negócio mesmo junto do local onde descarregam os pescadores.
Era costume eu ir também com ela, pois claro. Numa dessas nossas idas ao peixe, comprámos tamboril. Disse-nos o Sr. Adão:

- Era um tamboril enorme! Olhe, devia ter o peso da menina... - (a apontar para mim).

"Ena pá, - pensei cá para comigo- era cá um mostrengo!"

- ... tinha p'raí uns 48Kg - concluiu.

Ri-me muito. Para dentro, claro. Deixem lá o senhor peixeiro acreditar que peso 48Kg! Ainda bem que o senhor usa balança, porque se vendesse a olho, digo-vos uma coisa, ficava na miséria.

Quarenta e oito kilos. 'Tá bem, 'tá...



Inté*

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sem luz...

Não, não. Isto não é um post melodramático acerca da falta de luz na vida como uma analogia estupenda entre a luz e tudo aquilo que pode dar um verdadeiro sentido à nossa existência. 
É mesmo um post sobre o meu disjuntor. Ontem, pelas 17h00 fiquei sem luz. Puf!, aí vai ela. Portátil sem bateria, telemóvel a pedir carga... um cenário idílico. Eu, sempre muito paciente, esperei que ela voltasse. Mas ela não voltava. Esperei 20 minutos, nada; esperei 30 minutos, nada. Até que às 17h45, resolvi ir bater à porta da vizinha e perguntar se seria uma falha geral. Ora, a vizinha abre a porta e todo um clarão de luz se reflecte na minha pessoa - a vizinha tinha electricidade. Ainda assim, estupidamente, perguntei-lhe se tinha luz, ao que ela me respondeu que sim (pois claro... ).

Mas eu não tinha. Então, fui bater à porta do segundo vizinho que, segundo a primeira vizinha, se desenrasca bem com essas coisas de electricidade. Lá fui eu, de pantufas, bater à porta do segundo vizinho que, depois de uma luta renhida para não deixar o gato fugir, veio espreitar o quadro eléctrico. E voilá!, o meu disjuntor era a fonte de todo o problema: tem mau contacto e, aparentemente, disparou assim, sem mais nem menos. Então, o segundo vizinho, decide que é melhor chamar o filho, porque "ele é que percebe destas coisas". E lá vem ele (já lá vão três vizinhos). "Ah e tal, tem de se trocar a peça o mais rapidamente possível porque isto pode aquecer" (e eu a pensar: mau! Não me conheces de lado nenhum e achas que por estares no meu hall de entrada já tens direito a esse tipo de insinuações?), " e pode haver um in-cên-dio". ROOOOAAR! (som de trovões). O pânico!

Portanto, naquele momento:
- estou sem luz;
- já mobilizei três vizinhos;
- vi um gato que, a julgar pela velocidade a que queria fugir de casa, encarna o Diabo (o que, neste caso específico, é bastante indesejável, dado o potencial risco de incêndio);
- existe uma probabilidade não negligenciável de isto se tornar um fogaréu.

Reparem como eu, uma única pessoa, consegue mobilizar tantas outras! E agora, tenho luz porque o terceiro vizinho, filho do segundo vizinho, recomendado pela primeira vizinha deu à luz (impossível não meter uma piada amarela obstétrica sempre que se fala de luz...), e estou aqui à espera do electricista porque não me apetecia ter de mobilizar os bombeiros também...



Inté*