domingo, 8 de novembro de 2015

Introspecção de Domingo

Todos nós, penso eu, idealizamos certos aspectos da nossa vida. Há quem chame a isso "sonhos", outros optam pela designação mais pragmática de "objectivos", mas independentemente daquilo que lhe quisermos chamar, todos acabamos por delinear pequenas ideias e desejos para o resto dos nossos dias.

Fico muitas vezes a pensar se os meus sonhos - eu gosto de chamar-lhes assim - serão os mais apropriados. As minhas ambições não passam pela administração de um grande hospital, pela chefia de uma qualquer instituição ou pelo prémio Nobel. Não sou por isso, à luz dos ideais actualmente estabelecidos, uma pessoa de grandes ambições. Haverá outros aspectos igualmente importantes, certo?

Mas, de todos os sonhos que passam por esta cabeça e coração, será que algum será verdadeiramente útil a alguém? Será que não serão apenas uma forma de satisfação pessoal? Serão úteis a alguém além de mim?

O que interessa ao Mundo que eu conheça muitos países, que tenha uma família grande? Faz alguma diferença que eu tenha uma casa perto do mar ou no meio da serra? Melhora a vida de alguém que eu tenha um grande jardim onde os meus cães possam correr à vontade? Eu acho que não...

Chego à conclusão de que estou a sonhar pouco; de que, no geral, talvez grande parte de nós, sonhe pouco. Temos de sonhar também pelos outros... se calhar, sonhar aquilo que outros não sabem que deveriam sonhar.



Inté*


sábado, 7 de novembro de 2015

Morar no campo

Morar no campo é estar em casa a trabalhar e ouvir lá fora o som dos badalos das cabrinhas.
É ir dar um passeio a pé e ter alguém que convida a entrar na adega para provar a jeropiga.
É comprar os legumes a quem os plantou.
É ver cabritinhos acabados de nascer.
É ver os pastores chegarem ao final do dia com o seu rebanho.
É ter uma ribeira a correr à porta.
É passear o Pirata e deixá-lo beber água e molhar-se nas represas.
É estar rodeada de verde.

É tão bom!



Inté*

Ricardo Salgado - como ser um bom ladrão ou a melhor anedota do ano

Vou ser breve. Mas vou ser breve porque o que me faria realmente feliz neste caso, não seria escrever, mas sim dar um valente tabefe no Ricardo Salgado e nos senhores que tomaram as decisões de perdoar metade da dívida deste indivíduo e triplicar-lhe a reforma - que era muito baixinha, coitado.

Caras pessoas honestas, o que eu vos aconselho é que deixem de o ser. Roubem. Mas roubem muito - qualquer valor com menos de 6 dígitos é meramente ilustrativo. Roubem aos milhões. E, se quiserem realmente brilhar, roubem sem o necessitarem. O mais provável é que alguém vos perdoe o acto e vos aumente o ordenado. A única condição, é que o façam em Portugal. Porque só em Portugal é que os ladrões, aqueles mesmo de verdade que desgraçam a vida de centenas/milhares de pessoas, são premiados.

Ser bom trabalhador e cumpridor da lei em Portugal, tem-se tornado um verdadeiro acto de rebeldia. A avaliar pela quantidade de corruptos que temos nos mais altos cargos, admira-me como ainda não nos tornámos num bando de delinquentes. 

Noventa mil euros de reforma, Salgadinho. Noventa mil euros de reforma porque foste um bom menino. Noventa mil euros de reforma porque não te chegam os 3 milhões que roubaste. Há velhinhos que não tomam a medicação que lhe é prescrita porque não têm dinheiro... mas se calhar é porque não sabem poupar, não é?

És um monstro. Tu e as pessoas que deixam que estas coisas aconteçam.



Inté* 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Prazeres pequeninos

Ainda fico contente quando faço gasimetrias* à primeira. Palpar o pulso e sentir a artéria: tum... tum... tum. "Estás aqui!"- penso eu. "Uma picadinha, está bem?" "Então não pode? Que remédio!...". Não consigo deixar de achar piada a este tipo de consentimento. Como se não se pudesse dizer que não... 

"Então cá vai". Fico muito quietinha a olhar para a seringa à espera que o sangue suba. Muito quietinha na esperança de que a artéria não me fuja e eu tenha de picar outra vez! "Vá lá, sobe, sobe, sobe!". Se os doentes soubessem as orações mentais que eu faço antes de os picar e nos segundos imediatamente à picada... iam achar que era doida.


E eis que, vejo o sangue a subir, um sangue roubado à circulação arterial; vem por ali enganado com a força com que deveria seguir pela mão até às pontas dos dedos. Que alegria tão grande, que alívio! "Pronto, já passou".

E aí vai ela de seringuinha na mão, com um orgulho que guarda só para si. "Consegui, consegui!".


Outras vezes, começa tudo muito bem, com o sangue a subir, e o estupor pára a meio. "'Tão? Onde é que te meteste?". E continuo a sentir o pulso, por isso a artéria fugiu, mas não para muito longe. "Tens de estar aqui algures, sua..." E quantos nomes eu lhe chamo! Acho que é por isso que às vezes já não a volto a apanhar... Sensíveis, estas maricas.





Inté*


*uma picadinha que, mais frequentemente, se faz na artéria radial (no punho) e que permite avaliar O2, CO2 e equilíbrio ácido-base.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dias de prata

Não haverá, certamente, laço maior do que aquele que se criou, porque a Natureza assim o quis, entre o Céu e a Montanha. Agora que os dias se tornam cada vez mais invernais, cheios de chuva e nevoeiro, mais claramente eu discirno na paisagem pequenas provas desse amor já tão antigo. 

São braços fortes as grandes nuvens que avançam devagarinho e acolhem com delicadeza os cumes mais altos da serra. Quem a vê assim, imponente e tão majestosamente erguida sobre o sopé, não diria que a rendição aos encantos do Céu fosse tão prazenteiramente conseguida. Mas ela ali fica, lânguida, quase imóvel, nesse tão terno e duradouro abraço. 
Um abraço tímido, diria eu, pois sempre que se encontram assim, cai um véu sobre a paisagem, um nevoeiro cerrado, coberto de pequenas pedrinhas brilhantes, que esconde os dois amantes. 

Por estes dias, raras são as noites em que conseguimos uma visão clara sobre as estrelas. Penso que também o Céu se reserva esse direito de guardar pequenas surpresas só para quem lhe roubou o coração. Perdoo-lhe por isso, estas noites tão longas e escuras. As estrelas são da montanha e até lhe deram nome.

Esta conquista, à base de pequenos pontos fulgentes e dias de prata e cristais, terá a sua recompensa quando vier a neve e a serra se cobrir com um lindo e suave manto branco. Casar-se-ão os dois num abraço para sempre, à vista de todos e das andorinhas, que na Primavera já não há véu que os esconda.



Inté*


domingo, 1 de novembro de 2015

Sexta-feira 13

Novembro entrou hoje, a um Domingo. E é por isso que Novembro vai ter uma Sexta-feira 13.
Sabiam que sempre que os meses começam a um Domingo, haverá, certamente, uma Sexta-feira 13? 

Utilidade prática disto? Entre 0 e -1.



Inté*


O espírito é este



O espírito com que espero entrar na sala onde vou fazer a escolha da especialidade (sem contudo descurar a esperança de que posso conseguir aquilo que quero). 

Ainda não sabemos a data da escolha, mas sabemos que todos os dias estamos cada vez mais perto.
É vergonhoso que um procedimento que se repete todos os anos seja sempre tão mal organizado. O ano passado informaram os interessados que a escolha da especialidade seria feita no dia a seguir. Tendo em conta que em Portugal Continental, a escolha da especialidade só pode ser feita em Lisboa, Porto e Coimbra, imaginem o que isso representa para jovens médicos que vivem longe dessas zonas. Mais preocupante ainda, é o facto de em 2014, as listas definitivas de colocações terem sido divulgadas no dia 26 de Dezembro, sendo que o primeiro dia de trabalho foi dia 2 de Janeiro - menos de uma semana para encontrar casa numa cidade nova e fazer as mudanças. Uma falta de respeito, diria eu. Assim como é uma falta de respeito não nos atenderem o telefone na ACSS (que é quem desorganiza todo o processo) - dizem que é melhor enviarmos e-mail. E lá está o meu e-mail há mais de três meses à espera de resposta.
Ah, e o site onde temos acesso a todas as informações (cof cof) não vale uma merda, desorganização completa - um depósito de links e frases sem organização nenhuma.

Mas este tipo de coisas não é noticiado. Os médicos são sempre privilegiados e têm uma boa vida, não têm nada que se queixar... que se lixe.



Inté*