Estou sentada na sala de espera a aguardar pacientemente o autocarro que me vai levar para casa ao fim de quase mês e meio. As paredes são de vidro e nós parecemos uns peixes dentro de um aquário. Eu sou a única que estou a ler um livro. A maioria do pessoal mais novo está curvado sobre um iphone - coisa que eu não tenho (já era considerada antiquada e agora, desde que me mudei, não tenho televisão. Já não sei como me classificar). Se pensarmos bem, o Mundo cabe naquele pequeno objecto. A minha questão é se não será preferível olhar directamente para o Mundo em vez de o tentar ver através de um ecrã...
Uma mulher sentada ao meu lado, suspira longamente. E tosse que se farta. E volta a suspirar. Há dois rapazes mais novos sentados no outro lado a comer aqueles croissants embalados com chocolate. "Credo..." - lembro-me de pensar. Mas não tive uma atitude tão religiosa com as bolachinhas que a Avó tinha numa lata na cozinha... É por isso que me deixo ficar bem caladinha.
O livro que me faz companhia chama-se "As Serviçais" de Kathryn Stockett e conta a história de várias empregadas negras nos E.U.A. nos anos sessenta. Inacreditável o racismo que era abertamente apregoado na altura. Como foi possível a defesa de tais ideias? Pergunto-me se hoje em dia também seremos defensores ou, pelo menos, compactuemos com coisas que daqui a uns anos nos irão parecer completamente descabidas e absurdas...
Inté*