sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O Aquário

Estou sentada na sala de espera a aguardar pacientemente o autocarro que me vai levar para casa ao fim de quase mês e meio. As paredes são de vidro e nós parecemos uns peixes dentro de um aquário. Eu sou a única que estou a ler um livro. A maioria do pessoal mais novo está curvado sobre um iphone - coisa que eu não tenho (já era considerada antiquada e agora, desde que me mudei, não tenho televisão. Já não sei como me classificar). Se pensarmos bem, o Mundo cabe naquele pequeno objecto. A minha questão é se não será preferível olhar directamente para o Mundo em vez de o tentar ver através de um ecrã...
Uma mulher sentada ao meu lado, suspira longamente. E tosse que se farta. E volta a suspirar. Há dois rapazes mais novos sentados no outro lado a comer aqueles croissants embalados com chocolate. "Credo..." - lembro-me de pensar. Mas não tive uma atitude tão religiosa com as bolachinhas que a Avó tinha numa lata na cozinha... É por isso que me deixo ficar bem caladinha.

O livro que me faz companhia chama-se "As Serviçais" de Kathryn Stockett e conta a história de várias empregadas negras nos E.U.A. nos anos sessenta. Inacreditável o racismo que era abertamente apregoado na altura. Como foi possível a defesa de tais ideias? Pergunto-me se hoje em dia também seremos defensores ou, pelo menos, compactuemos com coisas que daqui a uns anos nos irão parecer completamente descabidas e absurdas...



Inté*

Dona de Casa

Quando me mudei, aquilo que estranhei mais, foi ter de fechar a porta à chave. E fechar as janelas. Em nossa casa, a porta está sempre aberta. Eu nem sequer tinha a chave de casa (e tive de entrar uma ou duas vezes pela janela, é verdade...). Mas, raras vezes, a porta lá de casa fica verdadeiramente fechada.

Cozinhar, tratar da roupa, não tem sido um grande problema. O meu quase transtorno obsessivo-compulsivo tem-me ajudado bastante nesse aspecto. Aos Domingos, estabeleço num calendário as refeições da semana seguinte. Assim, sei sempre quando preciso tirar alguma coisa para descongelar ou se é necessário comprar ingredientes. Preparar com antecedência é o truque!

O dia de ir às compras é o Sábado, de manhã. Durante a semana não há mais compras para ninguém, a não ser produtos frescos (fruta, legumes...). Não faço stocks. Compro aquilo que preciso e, quando falta, compro mais. Só para uma pessoa, não é preciso armazenar. Desconfio que se comprasse agora dois packs de embalagens de leite, me iam durar até ao Natal...

E é isto. Agora sou dona de casa.



Inté*

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Amendoins

Por falar em choques anafilácticos, os amendoins (e outros frutos secos) são muito propensos ao desencadeamento de reacções alérgicas. E eu adoro amendoins. Todas as semanas há um pacotinho de 500g que vai à vida (amendoins torrados! Os fritos são uma bomba...). E cada vez que como amendoins, lembro-me deste pequeno pormenor. E lembro-me também que a qualquer momento podemos desenvolver alergia a um alimento. E como na mesma. O melhor é aproveitar enquanto não sou alérgica a nada.


Além disso, se desenvolver uma reacção anafiláctica, posso sempre ir dar uma entrevista à tv... ou é preciso ter filhas com nomes zulus? Vamos já tratar disso.



Inté*

Quando pensamos que isto já não tem por onde piorar, eis que...

Neste preciso momento, temos Luciana Abreu em directo na tv a relatar a sua experiência pessoal durante uma reacção anafiláctica.

A nossa televisão no seu melhor! Clap clap clap



Inté*

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

1º mês

Faz hoje um mês que cheguei à minha nova cidade e parece que já estou aqui há muito mais tempo!...

Ainda estou viva e bem nutrida (aspecto particularmente importante para Manhê e Avó). Ainda tenho saudades de casa e das minhas pessoas. Quando chego a casa depois de 17 horas no hospital (dias de urgência...), ainda me apetece um abraço e um boa noite

Vai-se ocupando a cabeça e o coração, porque as saudades só se vencem assim. Até o mais ínfimo pormenor é usado para colmatar o que vai fazendo falta. Mas, sem sombra de dúvida, esta cidade tem-me oferecido coisas muito bonitas e eu sei que um dia destes, quando as saudades de casa começarem a ser mais pequeninas, eu vou conseguir ver melhor tudo o que há de bom por aqui. 

Ver o mar quando saio de casa, correr à beira-mar, cheirar o pãozinho quente em quase todas as ruas são algumas das coisas com que procuro minimizar este sentimento de não ter aqui as minhas pessoas mais queridas. Dar migalhinhas às gaivotas que pousam no parapeito da sala de reuniões ou ficar a ver os pequenitos a brincar no jardim também são estratégias para enganar a saudade... mas ela é uma espertalhona.

Continuo a fazer bolachas ao fim-de-semana e a coser as meias. Há coisas que não mudam.



Inté*

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Palavras leva-as o vento, já o outro dizia...

Estávamos na cozinha a fazer uma torta de laranja (que, a propósito, é a melhor torta de laranja do Mundo!), quando dei por mim a maçar a Manhê com as minhas conversas introspectivas. A Manhê tem sempre esta sorte de me ouvir a toda a hora. Na verdade, gostava até de saber a vossa opinião sobre o assunto...

Parece-me que as pessoas dão pouco valor àquilo que dizem. Existe a ideia de que, geralmente, somos maus ouvintes, de que damos pouca atenção aos outros - de que raramente somos todos ouvidos. Pelo contrário, parece que aquilo que não ouvimos, compensamos com a capacidade verbal. Mas será que somos apenas maus ouvintes? Eu acho que somos faladores péssimos. Dizemos tanta coisa da boca para fora... comprometemo-nos com coisas que não cumprimos; somos apologistas do "depois eu digo-te qualquer coisa", sem nunca cumprir essa promessa. Ou então: "depois combinamos", "depois eu mostro-te", "depois eu trago-te", mas falamos como se o outro, à partida, já nem acreditasse em nós - dizemos estas coisas só porque sim, um género de pró-forma que, na verdade, nos faz sentir melhor connosco próprios, apesar de o dizermos sem intenção nenhuma de o cumprir.

As palavras têm um peso. Eu parto do princípio que quando alguém me diz uma coisa, aquilo que foi dito, foi dito com uma dada intenção e não apenas dito por dizer. Eu fico à espera, eu levo a sério, eu acredito... ingénua talvez, não é? Mas o mesmo peso que eu ouço nas palavras dos outros, eu imprimo nas minhas. Eu digo as coisas a sério; quando eu digo, eu estou realmente a dizer alguma coisa. Mas apercebo-me muitas vezes, que as minhas palavras são escutadas com alguma leveza, uma certa descrença - afinal de contas, estamos habituamos a palavras vazias, parece-me.

O mais grave de tudo, na minha modesta opinião, são as palavras inflamadas. Chamemos palavras inflamadas aquelas que acarretam com elas uma carga sentimental maior. Coisas do género "minha querida", "muitas saudades" e por aí fora. Dá-me muito trabalho discernir entre aquilo que me é dito com intenção e aquilo que não é. As palavras não deveriam ser uma forma de aliviar a nossa consciência e de ficarmos bem connosco - não basta dizer coisas bonitas para anular actos menos bonitos. 

Eu sou complicada, já sei. Mas se disséssemos sempre aquilo que realmente sentimos, poupávamos muitas confusões.



Inté*


Sem comentários

Pela hora de almoço, a Nova Zelândia já tinha entrado em 2016. O Avô, ao ouvir a notícia no Telejornal, disse:

"Porra, até a entrarmos no Ano Novo somos mais atrasados do que os outros!"


E é isto.



Inté*