sábado, 13 de fevereiro de 2016

Ai as Urgências

Nesta altura do ano, as urgências são caóticas. Há muitas infecções respiratórias, hipotermias e afins. Os internamentos estão cheios, não há onde internar os doentes e as macas acumulam-se nos corredores. Às vezes, falta a paciência de quem trabalha mas, sobretudo, falta a paciência de quem está a ser atendido. De vez em quando, lá aparece o personagem agoirento que gosta de lançar uns bitaites em voz alta, só para deitar umas achas na fogueira (que já está pouco quente...). "Isto é uma pouca vergonha!", "Onde é que já se viu?", bla bla bla... e de repente, uma onda de indignação percorre os restantes doentes, que passam a não querer pôr a sonda, que subitamente querem ir embora. "Eu vou-me embora!". Penso que dizem isto em tom de ameaça e que o alvo é o médico. Mas o "eu vou-me embora" não tem exactamente esse efeito em nós, acreditem.

Outro fenómeno muito curioso é o doente que chega muito aflito. Ou porque tem dores, ou porque tem falta de ar... e, quando se sente melhor, acha que pode ir andando. Nem precisa do resultado das análises, nem do raio-x, nem de tratamento dirigido à causa, nem de coisa que o valha. Como se tivesse ido ao supermercado comprar "sais de frutos". Não interessa encontrar o que provocou as dores e a falta de ar. O que interessa é que já passou e, se por acaso, ficar sem ar outra vez, volta amanhã.
Voltam quando se sentem mal. Porque também há quem seja aconselhado a voltar dali a uma semana para ser reavaliado, para saber o resultado de umas serologias e para ser orientado, e não volte. Sabem o que isto é? Dinheiro de todos nós que foi para o lixo. Para não falar de irresponsabilidade e falta de respeito.

As urgências são também um consultório sentimental. E não digo isto em tom de gracejo. Não é raro que, lá pelo meio da história da dor de costas, haja uma mãe que faleceu há três meses. Ou então, umas "picadas" no peito de uma senhora viúva que se sente sozinha. Metade das vindas às urgências são, eu apostava nesta!, por falta de amor. E metade dos internamentos prolongados são, também apostava nesta!, por falta de amor. Não imaginam como somos pressionados a internar os velhinhos que, em consequência da doença, da idade avançada, ficam acordados de noite e não deixam ninguém dormir; ou precisam constantemente de atenção porque podem cair, porque não comem nem bebem pela mão deles... é incrível a facilidade com que estes doentes são propostos, pelos cuidadores, para ficarem no hospital.

Ao mesmo tempo, não os censuro. Deve ser imensamente cansativo não dormir uma noite inteira durante meses, às vezes, anos!, ou não poder sair de casa porque há alguém totalmente dependente de nós. O nosso sistema tem muitas falhas. E não me refiro só ao sistema de saúde, refiro-me também à componente social, que é cada vez mais decadente.

O dia de urgência é aquele dia em que, por vezes, dou por mim a pensar como deve ser bom ser pedreiro.



Inté*

13 comentários:

marianósky disse...

este texto diz-me tanto. acho que sou o outro lado. o cuidador (não exactamente exigindo um internamento e não por razões dessas, mas pronto). não o conseguiria explicar num comentário mas tenho posts inúmeros em rascunhos sobre isso apesar de não publicar dado o carácter pessoal. talvez um dia :)

esperto que nem um alho disse...

Começo pela última parte: no dia em que me encontre na situação de "fardo", espero continuar lúcido e que a eutanásia já tenha sido aprovada.
Quanto ao resto, fiquei de queixo caído um dia que fui com a espeta à urgência e ao fim de 11 horas de espera o médico nos aconselhou a não ir à segunda-feira, porque as pessoas bebem uns copos no fim de semana, sentem-se mal, mas aguentam até segunda, porque é dia de trabalho e querem baixa. eheheh
A última vez que fui à urgência, foi há 11 anos e fiquei internado um mês e tal. Tinha sido operado ao pulmão e apanhei uma bactéria resistente que me ia limpando o sarampo. Mas só fui porque me levaram e já não estava em condições de resistir.
Como ainda há dias comentei, não suporto salas de espera cheias, com pessoas a tossir e a espirrar-me para cima e as urgências dos hospitais são dos locais mais infetados que podemos frequentar. As pessoas ignoram e acham que por estarem no hospital, estão a salvo. Mal sabem elas que estavam mais seguras na pocilga, deitadas ao lado do porco. eheheh
"Jazus", tirem-me desse filme. :)

Moa disse...

Não deve ser fácil!

mz disse...

Neste caso, é "urgente" o amor e, as "urgências" diminuíam de certeza.



Anónimo disse...

Se todos os médicos pensarem assim "o pior dia é o das urgências", apanhamos todos com médicos mal dispostos, cansados, sem paciência nas urgências.
Não quero generalizar, mas também sinceramente é o que estás a fazer ao descrever os doentes. E depois há sempre os pobres coitados que pagam uns pelos outros. Médicos e pacientes.
Não gostei deste texto. Não gostei da forma como descreveste isto, mas a realidade é que todos os médicos tem exactamente esta visão das urgências. Mas é acima de tudo nas urgência que se salvam vidas. Isso devia deixar um médico feliz.

Maria do Mundo disse...

Sempre imaginei as urgências como as descreves, não só nesta altura do ano, mas sempre.

Estudante disse...

mz: sim, provavelmente :)

Anónimo: o texto não é um eufemismo. É muito bom ajudar as pessoas, mas não é fácil. Ao contrário do que dizes, a maioria dos médicos com quem me cruzo, apesar do cansaço e das dificuldades, preocupa-se e é empático com os doentes. É isso que eu admiro não só nos médicos, mas nos outros profissionais de saúde: cansados mas implicados e preocupados. Nunca no texto é dito que o pior dia é o dia de urgências - é um dia duro, é isso que é dito. E também se apela ao amor. Tenho pena que tenhas ficado com a ideia contrária.

Maria do Mundo: há dias... também há dias menos maus :) temos de ter paciência!

redonda disse...

Imagino, só imagino como poderá ser difícil (felizmente nunca tive de passar por lá enquanto paciente e acho que não seria capaz de ser médica ou enfermeira, que iria paralisar e iria abaixo)

Portuguesinha disse...

Não é uma profissão de papinhas e descanso, isso não...

Somos um país que gosta de desfiar um rol de problemas de saúde... Se o fazem em conversas de café e de circunstância, imagino num hospital, rsss.

Mas por cada dúzia desses pacientes creio que também existem os que não correm para os hospitais por qualquer coisinha, os que pensam que um remédio caseiro e descanso cura tudo.

Eu nunca fui a um hospital e nem quero ir!
Mas sabe-se lá o que o futuro nos pode trazer.

A velhice é muito pouco generosa com as pessoas. Pode até ser cruel.
Espero que as novas medidas que o governo quer implementar para facilitar às familiares poderem cuidas dos idosos venha a ajudar em alguma coisa.

um abraço

Estudante disse...

redonda: compreendo perfeitamente ;)

Portuguesinha: os cuidados de saúde primários poderiam perfeitamente resolver grande parte das "urgências"; eles são a nossa primeira linha de defesa. Mas ainda temos muito trabalho a fazer nessa área ;) quanto à velhice, é bem verdade. As culturas orientais são mais benevolentes com os velhinhos... a nossa cultura ocidental despreza um bocado os mais velhos...

Paula disse...

Este comentário dirigi-se sobretudo ao anónimo que não gostou do texto... A verdade não pode ser escamoteada, e impõe-se por si própria. Os "floreados" não adoçam a pílula...
Esta médica reconhece que há pessoas impacientes e quantas vezes mal-educadas, que não ajudam nada, mas preocupa-se com o facto de os pacientes sairem sem estarem devidamente informados e medicados para o problema que ali os levou, de não voltarem quando deviam, de não serem devidamente assistidos.
Fiquei precisamente com a ideia contrária à sua: temos aqui alguém que escreve com uma visão de grande sensibilidade e preocupação com os outros, que fala de amor-compaixão pelo próximo, que percebe quando as pessoas precisam de mais do que comprimidos, coisa rara nos tempos que correm...

Estudante disse...

Paula: :) acho que percebeste o que quis dizer!

J-o-a-n-a disse...

Estudante: como tu sabes, percebo-te bem.
O dia da urgência é fácil, não. Não melhora quando fazes 24h ou tens que ir ao internamento antes ou depois da urgência.

Os doentes (alguns, óbvio!) julgam que estamos lá para lhes obedecermos. Noup. Estamos lá para darmos o nosso melhor e ajudarmos quem quer ser ajudado a ficar o melhor possível. Se isso implica ser o saco de pancada de alguns?! Nem por sombras. Mas e de outros? Talvez... consigo perceber alguém rabugento de dores e que refila e refila (desde que não perca a educação pelo caminho!).

Mas os hospitais suspeito que sejam dos sítios onde mais se precisa de amor.
É por isso que me levanto todos os dias, mesmo que esteja frio, tenha sono, dores de corpo ou de alma.