domingo, 29 de maio de 2016

A (Des)informação

Hoje em dia é muito comum dizermos que as pessoas estão "mais informadas". O acesso mais fácil a instrumentos como a internet veio possibilitar uma consulta quase ilimitada de dados sobre quase tudo.
A minha questão é: até que ponto tanta informação não será uma forma de desinformação. Nem tudo o que encontramos, seja em revistas, livros ou conteúdos online deve, na minha opinião, ser considerado informação no verdadeiro sentido da palavra - isto se partirmos do princípio que uma pessoa informada é aquela que está correctamente informada.

Por isso, lamento que nos consideremos pessoas muito informadas. Reparem na quantidade de dados errados que circula por esse Mundo fora. A internet veio possibilitar que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa e, pior do que isso, tornar essa "informação" disponível para milhões de pessoas, pelo menos potencialmente. A televisão, por exemplo, também pode ser uma falsa fonte de informação se tivermos em conta, por exemplo, a selecção de notícias que é feita - muitas vezes pouco imparcial, tendencialmente sensacionalista e manipuladora.

Esta questão da informação (e desculpem lá a minha veia médica), também é extremamente importante na relação médico-doente. O doente tem direito a ser informado, é verdade. Mas estaremos nós a defender a forma mais correcta de informação? A disponibilização de mais informação é efectivamente a melhor forma de informar alguém? Isto é, será que nesta tentativa de informar bem o doente, se aplica a máxima do "quanto mais melhor"? Ou será mais importante a maneira como o doente é informado?

É uma questão difícil. Eu já cheguei a fazer desenhos aos doentes. Eu já vi outros médicos fazerem desenhos. Porque não se pode esperar, a título de exemplo, que uma pessoa que não tenha estudado anatomia compreenda certos procedimentos cirúrgicos (é normal...). Informamos melhor se lhe descrevermos o processo no íntegra ou se lhe fizermos um esquema que a faça compreender o grosso do que vai acontecer?

Coloco esta questão com a humildade de quem, por vezes, fica na dúvida sobre o que fazer... além de que, a maneira como as coisas são ditas também influencia muito a compreensão daquilo que é dito. A veiculação de informação e, portanto, a comunicação são assuntos difíceis e subvalorizados, a meu ver. Se pensarmos bem, grande parte dos nossos conflitos (e do Mundo, talvez) resulta exactamente de uma má comunicação.

A história da desinformação com que eu iniciei este post (e que já vai demasiado longo), é quase como aquela tendência que existe para achar que as pessoas que falam muito são muito comunicativas... serão mesmo? É que há gente que fala tanto para não dizer nada... 

Portanto, um acesso rápido a muitos dados é, algumas vezes, um verdadeiro perigo, porque temos pessoas seguras de que estão bem informadas a tentar fazer valer as suas verdades com base em conhecimentos muito pouco fiáveis (nem sempre, é claro).

A solução não pode passar, como é óbvio, pela filtração daquilo que é disponibilizado porque, por um lado, isso é praticamente impossível e, por outro, porque seria um atentado ao direito de expressão. Não consideramos tão grave a veiculação de informação falsa e descabida. A liberdade trouxe com ela este efeito perverso de ao "sermos livres de dizer", acharmos que não existem consequências em dizer tudo...


Inté*

9 comentários:

Jedi Master Atomic disse...

Tem que se ter cuidado com o que se lê online, pois há muito lixo. O que não é o caso do teu blog :P

Agridoce disse...

No caso concreto da relação médico-doente, eu sou pela informação. Eu sou das que gosta de saber as coisas, gosta de perceber. E sim, já me fizeram desenhos. O último foi o meu ginecologista para me mostrar a localização do meu mioma. E eu fiz mil perguntas, e ele teve uma paciência enorme para me explicar tudo. E eu gosto disso.

Não sei se todas as pessoas são assim. Cada caso é um caso e lamento não te poder ajudar, porque nem sempre é fácil perceber o tipo de pessoa que temos à frente. Se a pessoa não vai perceber, será que estarás a criar confusão ao dar demasiados detalhes?... Acho que o que é mais importante é que os médicos estejam disponíveis para responder a todas as questões que os pacientes tenham. Detesto quando isso não é assim!...

E sim, concordo que com tanta informação, não estamos necessariamente mais informados!...

K disse...

Sou a primeira pessoa a assumir que não sei NADA!
Há uns tempos, fui a uma consulta com um nutricionista e fiquei a sentir-me tão, mas tão burra. Ele estava a falar comigo, como se eu fosse obrigada a conhecer todo e qualquer tipo de alimento e o que possuía e o que fazia... Nossa, se eu soubesse, não ia lá!

Mas vejo isso de que falas, todos os dias, pessoas que não sabem nada, como eu, mas acham que podem dizer tudo e dizem-no com uma certeza que assusta.

Quanto à relação paciente-médico, a informação é super importante. E o método que usas para explicar ainda mais importante é. Se me fizesses um desenho, ficaria imensamente grata. Tenho a certeza de que será muito mais fácil de compreender e ter dúvidas (porque para expôr, é preciso tentar perceber).
Agora, se falares comigo, apenas com todo o palavreado que, para mim, equivale a chinês, por muito que tentes, nunca será possível que eu retenha a informação tão bem.

Mas, claro está, esta é só a minha opinião. Só para saberes que ficaria feliz, se me fizesses um desenho para me explicares as coisas de forma mais simples. :)

Sci disse...

Penso que o acesso (quase) ilimitado à informação tem pontos contra e outros a favor, mas concordo contigo na questão da solução não passar pela filtração. O que faz falta desenvolver é o sentido crítico das pessoas. Temos uma esmagadora percentagem da população que aceita tudo como verdadeiro, inclusivamente opiniões alheias, sendo incapazes de pensar por elas próprias. E é essa postura dogmática que também inviabiliza uma troca de ideias saudáveis e o respeito por outras "verdades".

Quanto à relação médico-doente, subscrevo as palavras da Agridoce. Também passei por algumas situações de não saber qual a melhor forma de transmitir informação ou mesmo qual devia transmitir. Mas colocando-me na posição de doente, e correndo o risco inerente a uma generalização, penso que o mais importante é haver receptividade. Ouvir e perceber o que a outra pessoa precisa, informar de acordo com o que é pedido. Quando um médico não se mostra com vontade de falar com o doente, este provavelmente vai encarar a questão de 2 ou 3 formas: 1) o caso é grave e não me quer dizer; 2) o médico nem se preocupa comigo para me dizer alguma coisa ou 3) o médico nem me ouviu ou acha que sou demasiado ignorante para perceber o que está em causa. Qualquer uma destas não é agradável nem benéfica para a relação dos dois. Acredito que a disponibilidade para ouvir e responder perguntas já orienta o médico no que deve e como deve dizer. No fundo, penso que é apenas uma questão de personalização. Encarar o doente como pessoa, indivíduo e demonstrar-lhe isso mesmo.

м♥ disse...

Muito interessante esta questão! De facto, existe muita forma de estarmos informados. Mas ainda existem muitas pessoas incapazes de procurar essa informação e, pior ainda, pessoas que não sabem o que fazer com a informação que possuem. Acho que temos mais acesso à informação, sim, mas não acho que, no geral, estejamos mais informados.

Observador disse...

Informação, informação, informação.
E quando pensarmos que há qualquer dúvida, mais informação.

Boa semana

Estudante disse...

Jedi Master Atomic: ahaha :P às vezes, também não se diz nada de jeito por aqui ;)

Agridoce: pois... eu acho que a maneira como dizemos as coisas e aquilo que dizemos, depende também da pessoa a quem o dizemos :)

K: não tens de te sentir burra :P e claro, os médicos (e acho que qualquer pessoa) deve adequar o vocabulário conforme o público alvo... ;)

Sci: sim, o sentido crítico era a solução para o problema :D mas é bastante difícil de "implantar" :P

M: concordo contigo ;)

Observador: é isso mesmo :P Boa semana!

Paula disse...

Concordo muito contigo, e acho muito boa ideia fazeres desenhos para os teus pacientes :)

Estudante disse...

Paula: :)