sábado, 3 de setembro de 2016

As memórias pequenas

Não é raro, e provavelmente também acontece convosco, eu fixar na minha memória pormenores muito pequenos do dia-a-dia e acabar por esquecer aspectos que, aparentemente, seriam os mais lógicos de guardar algures nuns neurónios gaveta.

Quando era pequena, o Avô comia pão às refeições. Agora já não come, porque parece que a doçura que insiste tanto em esconder na sua aparência de homem não sentimental, se lhe transferiu para o sangue e acabou por ficar com diabetes. Mas o Avô não comia um pão qualquer; o Avô comia um pão de centeio, que naquela altura me parecia enorme, e que cortava com a ajuda da sua navalha, num corte seguro e imensamente preciso, originando grande fatias semilunares de pão. Para mim, observá-lo neste pequeno gesto, era quase uma cerimónia. Ele nunca deu conta, penso eu, de como eu gostava assistir ao seu ritual. O Avô tinha um pão especial que cortava com a sua navalha - e também a navalha era um objecto que me merecia imenso respeito porque o Avô andava sempre com ela num dos bolsos das calças.

À hora do lanche, o Avô voltava a comer o seu pão centeio, desta vez com uma ou duas fatias de queijo; queijo de verdade, daqueles feitos de forma artesanal, feios, tortos e mal cheirosos que ainda hoje fazem as nossas delícias. E lá vinha a navalha, o corte perfeito no pão grande e cinzento, que era, não o pão centeio (sabia lá eu o nome dos cereais), mas antes o "pão do Avô".

Hoje, o Avô já não come este pão... mas a navalha, essa, está sempre lá.



Inté*

10 comentários:

Esmy disse...

Sabes, por momentos ao ler o teu belíssimo texto, recordei o meu avô, que tal como o teu comia pão de centeio e tinha uma navalha. Obrigada pela lembrança. Que saudades... Beijinho

Lápis Roído disse...

A vida é feita destas pequenas coisas que, no fundo, tem um valor sentimental tão grande :)

Estudante disse...

Esmy: que bom :) e nada tens que agradecer!

Lápis Roído: é isso mesmo ;)

Portuguesinha disse...

Também sou da geração do avô com navalha.
Foi uma boa geração, em diversos sentidos. Fruto de uma realidade portuguesa diferente do que hoje conseguimos imaginar. Penso que, independentemente das classes, era diferente para todos.

Andreia Morais disse...

Há detalhes que nunca esqueceremos.
Que ternura *.*

r: Sim, sem dúvida, é mesmo preciso!

Estudante disse...

Portuguesinha: sim, sem dúvida. Conheceram uma vida e um país muito diferentes daqueles que conhecemos agora ;)

Andreia Morais: é verdade :)

Anónimo disse...

escreves tão bem! sou sempre transportada para o cenário que relatas :) gosto tanto. um beijinho muri

Cherry disse...

São nos pequenos detalhes que reside a verdadeira beleza da vida :). Também gosto de guardar essas pequenas memórias dos detalhes dos meus dias.
Gostei tanto deste post, da maneira como descreveste esse gesto do teu avô.
Beijinhos,
Cherry
Blog: Life of Cherry

Estudante disse...

Anónimo: obrigada :)

Cherry: sem dúvida :) as coisas pequeninas são os brilhinhos dos nossos dias!

Monica Almeida disse...

Eu,então,não fixo nada na minha memória,tenho uma memória muito fraca!!