quinta-feira, 8 de setembro de 2016

É costume dizer-se que o tempo cura tudo; que não há mal que nunca acabe. Não sei se o tempo cura tudo.. eventualmente, até poderá curar, mas não na nossa escala de tempo. Afinal, quando se acaba o nosso tempo, o tempo, efectivamente, levou tudo com ele e curou o que haveria de torto. Mas talvez existam coisas em nós que não devam ser curadas; pequenas grandes feridas que vão ficando, porque se a vida é um caminho, difícil era não ir dando umas quedas de vez em quando.

Elas vão ficando, umas melhor cicatrizadas que outras. Vão-se tornando cada vez mais indolentes, mas algumas, teimosas que só elas!, vão dando sinais da sua presença quando toca uma certa música, quando ouvimos uma certa voz, quando sentimos um certo perfume. Curiosamente, as mais dolorosas são as que nasceram de momentos mais felizes; quanto mais felizes as recordações, mais triste a sua lembrança... é um paradoxo curioso, não acham?

Talvez, na verdade, algumas delas nem cheguem a ser propriamente feridas... Será que nos sentimos um pouco mais aliviados se pensarmos assim? Se imaginarmos que, à medida que crescemos, crescem nas nossas costas uns raminhos de cerejeira. Cada flor que ali nasce é uma memória e só quando passa o vento, e faz dançar e cintilar as folhinhas, é que damos por elas. Então, momentaneamente, sentimos-lhes o perfume. 

Eu já tive um vale de cerejeiras que agora é uma flor pequenina nas minhas costas. Ou no coração, não sei bem.



Inté*

11 comentários:

Lápis Roído disse...

Há coisas que o tempo tem, efectivamente, a capacidade de curar ou, pelo menos, de diminuir a sua importância. E se isto serve para o que acabou, serve igualmente para o que ainda perdura. Só o tempo consegue dizer-nos se aquilo que vivemos no passado ou que ainda resiste ao seu progresso inexorável nos deve consumir o afecto que lhes dispensamos. É o tempo, só o tempo. Um abracinho, sôtora ;)

Esmy disse...

Belíssimo texto e tão certeiro. É de facto um paradoxo sofrermos com as boas recordações, mas são elas que nos prendem e não nos deixam avançar como desejaríamos. Como diz a letra de uma das músicas da Marisa, " as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade, só as lembranças que doem ou fazem sorrir..." Resta-nos o tempo para as conseguirmos encarar, inevitavelmente com nostalgia. Fazem parte do processo e crescimento de cada um. Beijinhos

Andreia Morais disse...

Há dias em que acredito que cura tudo, mas há outros em que me pergunto se apenas não nos faz olhar para as coisas com menos importância (e talvez isso até seja uma espécie de cura)

Pedro Coimbra disse...

Essas cicatrizes todas são lições que devemos guardar para o futuro.
E toda a gente as tem.
Bjs, bfds

Linda Blue disse...

Dar tempo ao tempo, a maior das redundâncias, que nem sempre funciona.
E depois, tal como um médico, ele cura quase tudo. Mas não tudo...

Jedi Master Atomic disse...

O tempo não cura nada, é o que fazemos durante esse tempo que pode ou não curar.

Monica Almeida disse...

Infelizmente,há feridas que o tempo nunca pode curar,embora digam que o tempo cura tudo,eu acho que isso é uma grande mentira,pelo menos,é a minha opinião!!

Zé do Pipo disse...

Não sei se é o tempo que cura, ou se são as dores de novas feridas que nos fazem parecer que as primeiras doem menos. O tempo só cura tudo quando o nosso tempo acaba. Enquanto temos consciência, não há como apagar as cicatrizes.
É verdade que são os tempos felizes que nos deixam maior mágoa. "Mal acomparado", é como sentirmos mais as ofensas quando partem dos que amamos. Quem é que se rala com o que diz quem passa? :/

Gaja Maria disse...

Quem cura não é o tempo, somos nós quando decidimos guardar cada flor num cantinho e seguir em frente :)

Anónimo disse...

<3 beijinho muri

♥Cat disse...

Às vezes essas cicatrizes doem tanto que custa a acreditar que o tempo cura, mas tudo passa e a dor ameniza. E aí somos felizes, com uma memória, uma aprendizagem e a capacidade de seguir em frente.
Beijinho!