sábado, 27 de julho de 2013

Tentámos salvar o Zé...

O Zé é um pardalinho que foi ter aos dentes do Simba, o meu gato. Pequenino e com pouca experiência, lá se deixou apanhar pelo mini-tigre cá de casa que pelos vistos, procurava uns minutinhos de entretenimento.

Foi o Avô que o encontrou, tombado na relva, cansado e imóvel. Mas o bichinho estava vivo e talvez o que "elas lá aprendem na faculdade, ajude a safar este!...". O Avô chamou a mana e pediu-lhe para o pôr perto do ninho - só o Avô é que sabe estar atento o suficiente para saber onde os pardais fazem os ninhos e escondem os filhotes.

Soro e betadine nas feridas, e umas gotinhas de água pelo bico abaixo com um conta-gotas improvisado, foi tudo o que pudémos fazer. A respiração do Zé não era normal e uma das patinhas parecia estar partida... muito provavelmente, o gato conseguiu quebrar o arcabouço de açúcar da avezinha. Estava mais que visto que a causa estava perdida mas a mana contestou o mau agoiro da Avó com um: "mais vale morrer quentinho do que aí desamparado".

A propósito deste assunto, das coisas que mais me impressionam, são as pessoas que morrem completamente sozinhas, seja nos hospitais, ou nos lares... Acho que estamos a medicalizar muito as coisas. No meu mundo ideal, cada um deveria ter o direito de optar por morrer em casa, se assim o desejasse. Certamente, existem casos em que isso não é possível, mas acredito que em muitos deles tal seria perfeitamente exequível com o provável apoio de pessoal médico ou de enfermagem (se necessário).

Porém, acredito que muita gente prefere não assistir à partida dos entes mais queridos e como "longe da vista, longe do coração", as instituições e os hospitais acabam por mitigar um pouco esse sofrimento. Apesar da controvérsia que eventualmente este tópico possa causar, sou a favor de que todos deveriam ter a possibilidade de se despedirem no local que mais lhe aprouvesse, perto de quem mais as confortasse.

***


O Zé acabou por morrer numa caixinha de sapatos forrada a algodão, essa nuvem improvisada de um céu onde nunca voou.



Inté*

13 comentários:

Audrey Deal disse...

Ohhh vocês foram uns queridos! Há uns tempos vi uma reportagem de pessoas que morriam sozinhas, deve ser tão triste!

anokas disse...

Eu acho que nós morremos sempre sozinhos, niguém vai connosco. Podemos morrer numa beira, na nossa cama, numa cama do hospital ou do lar. Eu se pudesse escolher, gostava de morrer durante o sono, morria e acordava morta :)

Posso-te dizer que é muito difícil assistir ao fim de um ente querido em casa. É demasiado sofrimento, mas no fim conforta-me saber que morreu no seu quarto, na sua casinha.

Estudante disse...

Audrey Deal: deve mesmo!...

anokas: obviamente que não morremos por osmose e não arrastamos os outros connosco quando falecemos :P ainda assim, parece-me que a morte de uma pessoa querida nos mata sempre um bocadinho por dentro... dessa perspectiva, os outros também vão um bocadinho connosco :)

Eu acredito que seja difícil... mas esse conforto que dizes sentir é o que eu acho fazer valer a pena dizer um último adeus na sua casinha ;)

Mamã de Peep-Toe disse...

Óh,pobre pequenino. Se o meu gato fizesse isso....também me choca deixarem entes queridos nos hospitais. Principalmente ao abandono. Uma tristeza.

Ju disse...

Coitadinho do passarinho :(, mas teve muita sorte em encontrar pessoas tão queridas como vocês, és mesmo um anjo Estudante :)

somaijum disse...

Eu preferia morrer a dormir, mas só daqui por 500 anos. xD

O texto e a ação sobre o pardalito, está muito bonito.
Aquele último parágrafo, "matou-me". :(

mmm´s disse...

Acabou por morrer, mas morreu de forma digna, rodeado de cuidados e carinho. Que gestos tão bonitos e valorativos.

Tétisq disse...

quando se faz o melhor que se sabe e pode pelos outros mesmo que isso não os salve, resulta como um conforto para quem parte porque partiu com a certeza de que alguém esteve do seu lado e preocupado consigo também para quem está ao lado porque sabe que fez o que pode e contribuiu para que o que parte o faça com um pouco mais de paz...

inté*

Estudante disse...

Mamã de Peep Toe: oh... os gatos são caçadores por natureza... de vez em quando já me prega assim umas partidas :P

Ju: coitadinho, também não lhe valeu de muito :\ não sou nada :P

somaijum: fico contente que tenhas gostado do textinho! :)

mmm's: obrigada :)

Tétisq: concordo plenamente ;)

Márcia V. disse...

No meu de tanto azar o Zé encontrou pessoas que ainda tentaram tratar dele,e isso é de louvar.
Quanto ao resto também acho que deveríamos poder escolher onde queremos morrer.Das coisas mais tristes que deve acontecer é alguem morrer sozinho e ultimamente ouve se muito falar disso,é triste.

Estudante disse...

Márcia V.: pois é... não sei se se ouve falar mais sobre isso porque tem aumentado o número de casos ou porque as pessoas já estão mais atentas para isso...

Paula disse...

A "nuvem de um céu onde nunca voou" trouxe-me as lágrimas aos olhos...
beijinhos.

Estudante disse...

Paula: ahaha :P não era minha intenção!