sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Prazeres pequeninos

Ainda fico contente quando faço gasimetrias* à primeira. Palpar o pulso e sentir a artéria: tum... tum... tum. "Estás aqui!"- penso eu. "Uma picadinha, está bem?" "Então não pode? Que remédio!...". Não consigo deixar de achar piada a este tipo de consentimento. Como se não se pudesse dizer que não... 

"Então cá vai". Fico muito quietinha a olhar para a seringa à espera que o sangue suba. Muito quietinha na esperança de que a artéria não me fuja e eu tenha de picar outra vez! "Vá lá, sobe, sobe, sobe!". Se os doentes soubessem as orações mentais que eu faço antes de os picar e nos segundos imediatamente à picada... iam achar que era doida.


E eis que, vejo o sangue a subir, um sangue roubado à circulação arterial; vem por ali enganado com a força com que deveria seguir pela mão até às pontas dos dedos. Que alegria tão grande, que alívio! "Pronto, já passou".

E aí vai ela de seringuinha na mão, com um orgulho que guarda só para si. "Consegui, consegui!".


Outras vezes, começa tudo muito bem, com o sangue a subir, e o estupor pára a meio. "'Tão? Onde é que te meteste?". E continuo a sentir o pulso, por isso a artéria fugiu, mas não para muito longe. "Tens de estar aqui algures, sua..." E quantos nomes eu lhe chamo! Acho que é por isso que às vezes já não a volto a apanhar... Sensíveis, estas maricas.





Inté*


*uma picadinha que, mais frequentemente, se faz na artéria radial (no punho) e que permite avaliar O2, CO2 e equilíbrio ácido-base.

18 comentários:

Timtim Tim disse...

Por acaso não tenho medo nenhum das picadinhas e em mim tem sido fácil encontrar as artérias.

Estudante disse...

Timtim Tim: sortuda ;)

Sci disse...

As minhas artérias não sei, mas as veias são bailarinas ;)
(Esta semana dissertei sobre a minha experiência com as análises. Imagino que as pobres vítimas que me apanham à frente também me chamem nomes, ou às minha veias, pelo menos...)

Estudante disse...

Sci: ahah! Eu li o teu post agora de manhã :D foi uma coincidência e tanto! Ninguém te chama nomes ;) podem é chamar nomes às tuas veias!

Shinobu disse...

Sempre que fui tirar sangue nunca tive problemas que nem achava que havia tanta complexidade por trás disto tudo. Se calhar as minhas artérias não são marotas como a dona.
Beijinhos!

Estudante disse...

Shinobu: ahaha :P

Anónimo disse...

Sou estudante de medicina do 6º ano e todos os dias faço as mesmas orações! Infelizmente não tenho tido assim tanto sucesso...

esperto que nem um alho disse...

É um exame chatinho. Ao contrário do sangue que tiramos das veias, para as análises normais, este vem lá do fundo, junto ao osso onde a artéria se "esconde" para se proteger de "rombos" acidentais.
Meus deuses, que porra de exame é que eu ainda não fiz?... xD

Nádia disse...

Só de ler sobre picadinhas acho que se me baixou a tensão arterial. Sou uma menina xD

Estudante disse...

Anónimo: não digas isso ;) há dias e dias... umas vezes, nem uma, outras vezes saem todas à primeira ;)

esperto que nem um alho: de facto, tu já fizeste de quase tudo :P e sim, é mais incómodo do que as punções venosas :)

Nádia: ahaha :D pronto, vai lá ler outra coisa!

Anónimo disse...

bahhh já tenho tantas saudades de fazer uma gaso! xD
Harry daqui a 11 dias, estou por tudo

Estudante disse...

Anónimo: ahah! Quando estudamos o Harry temos saudades de tudo :P muita força nesta recta final ;)

J-o-a-n-a disse...

O que eu me ri agora!!!!!!!
é tãoooo isso!

Estudante disse...

J-o-a-n-a: :D

Portuguesinha disse...

Ahaha. Que espirituosa!
Mas acho que estás enganada...

Talvez todo esse diálogo interior não seja literalmente entendido por quem vai ser picado. Mas que dá para entender que se passa uma espécie de «súplica» com um tanto de receio de falhar e que aquele é um momento de extâse, acho que a maior parte das vezes sempre "li" esse tipo de pensamento na postura corporal da pessoa que me retirou sangue. Uma ou outra vez, creio até que esse receio por antecipação tenha afectado o sucesso da imediata colheita do sangue.

Sangue, que, tal e qual poeta, dizes que é arterial e que sobe pela seringa com «a mesma força com que chega à ponta dos dedos das mãos». Isso é que é uma veia (trocadilho) poética! :D

Portuguesinha disse...

Olha, já agora, aproveito para esclarecer uma dúvida.
Para mim ela é de extrema importância.

Cada vez que me tiram sangue penso nisto... Mas receio falar. Não quero ferir susceptibilidades. Mas quem pode acabar mal por isso sou eu. Cá vai:

Não é suposto a pessoa que retira o sangue usar sempre LUVAS?
É que já fui a duas clínicas diferentes, as pessoas são sempre outras mas mãos enluvadas... não vejo.

O «tap,tap,tap» sem luva, para sentir a veia, até entendo. Mas no final, quando o sangue jorra, e o algodão é pressionado na ferida... Isso não é um momento de extrema vulnerabilidade?

Penso que o profissional de saúde corre riscos, mas sinceramente, acho que eu muito mais! Porque a minha corrente sanguínea é que está exposta, é que foi «invadida»... E se aquele dedo sem luva, que tocou no algodão, que encosta agora no meu sangue, já tocou noutra amostra qualquer de um outro paciente que tem algo contagioso?

Será que tu, na qualidade de quem colecta sangue, alguma vez reparaste que é isto que o outro lado, sentado na cadeira, está a pensar? Que são estes os pensamentos (os meus, pelo menos?).

A última coisa que penso é se vai doer ou que a pessoa é incompetente e não sabe o que faz. Mesmo quando começa insegura. E quer espreitar o braço que não lhe estendi para ver se acha melhor a veia, acabando por regressar ao primeiro. Se penso em algo aflitivo, é nisso da contaminação.

Se der, se perceberes esta «enchurrada» de palavras e ideias que surgiram agora na minha mente cansada quase às 3h da madrugada, pf passa no meu canto só para me dar o teu ponto de vista.

Aguardo.
Bjs.

Portuguesinha disse...

PS: não disse que a mente estava cansada?
Entendi agora que falas de outro tipo de tirada de sangue. Certo? Bom esquece a confusão que fiz. Deleta. Cansaaaaaço... Se calhar devia fazer essa tal gasimetria para analizar os níveis de oxigénio cerebral.. (dá para isso)?

Desculpa as prováveis «idiotices».
Boa noite

Estudante disse...

Portuguesinha: ahaha! Não foi assim um lapso tão grave ;) quanto às luvas, tens toda a razão - devem ser sempre usadas, mesmo neste tipo de colheita de que falei ;) é um mau hábito não as usar...