domingo, 23 de outubro de 2016

A impulsividade é uma coisa muito bonita...

Durante a nossa formação enquanto Internos, para além do trabalho hospitalar propriamente dito, é necessário fazer outro tipo de trabalhos, nomeadamente, escrever artigos, fazer posters, fazer apresentações orais... e por aí fora. No nosso hospital, as apresentações de casos clínicos são feitas, geralmente, às 6ª-feiras de manhã. 

Tenho um colega que tem apresentado casos muito complexos e, infelizmente, os casos com que nos tem brindado são de doentes com patologias graves, que acabaram por falecer. Ora, na passada 6ª-feira, o meu colega fez uma nova apresentação. Fiz figas para que desta vez, tudo acabasse bem. Estava esperançosa de que, apesar do mau prognóstico que se adivinhava à medida que ele expunha o desenrolar da história, o doente ainda estivesse vivo. Mal (a menos que tivesse havido um milagre!), mas vivo. Infelizmente, esta minha esperança não se concretizou. No momento em que o colega nos diz que "o doente acabou por falecer", tudo em mim foi desilusão e revolta (Grrr! Outra vez?!) e, no silêncio da sala onde se encontrava a maior parte do staff médico do Serviço, Estudante bate com o punho cerrado na cadeira e exclama: FOGO!

Um "fogo" que exprimiu toda a minha frustração e desilusão por ver que, mais uma vez, a história tinha acabado mal. Foi uma gargalhada geral, como seria de esperar. Mas que hei-de eu fazer, foi mais forte que eu... saiu-me!

Na tentativa vã de explicar o ultraje que senti, argumentei: as Histórias não acabam assim! Nas Histórias de verdade, as pessoas não morrem...



Inté* 


Uma adenda: os casos são apresentados de forma anónima, isto é, a plateia não tem conhecimento da identidade do doente. Neste tipo de exposições orais, os casos clínicos servem apenas como uma introdução para uma revisão teórica posterior ;)

21 comentários:

м♥ disse...

A discussão de casos clinicos é das coisas mais interessantes e importantes para a formação. Felizmente, quando fazia e ouvia casos clínicos, havia sempre esperança na mudança, na melhoria. Mas a sensação de impotência é comum a muitos e muitos casos.

Ju. disse...

Percebo tão bem essa tua atitude, e a esperança que manténs de que as coisas acabem bem, apesar de mal encaminhadas... :/ Espero um dia também vir a ser como tu! (: É a vontade de que as coisas corram melhor que nos leva a lutar pelos doentes.
Beijinho*

Estudante disse...

M: é mesmo ;) nem todos correm bem!

Ju.: oh ^^ não querias ser como eu, que há muito melhor! ;) Bom Domingo!

Rapariga que ninguém conhece disse...

É difícil manter a esperança nestes casos quando as patologias são demasiado graves. Compreendo a tua frustração, força!

Maria do Mundo disse...

Fizeste-me lembrar de quando trabalhava com delinquentes toxicodependentes...havia sempre a esperança...

Estudante disse...

Rapariga que ninguém conhece: ;)

Maria do Mundo: :)

Andreia Morais disse...

É uma reação perfeitamente natural, na minha opinião, até porque, apesar dos prognósticos não serem nada favoráveis, há sempre essa réstia de esperança de que desta vez as coisas sejam diferentes. A frustração fala mais alto e o nosso lado humano fica exposto de uma forma que nem sempre conseguimos controlar

Estudante disse...

Andreia Morais: :)...

i. disse...

Vocês vão para medicina por um motivo e ele só vos apresenta o pior cenário :P feio!

Estudante disse...

i.: não, felizmente, a maior parte das vezes corre bem ;)

Gaja Maria disse...

É preciso ser muito duro para trabalhar nas áreas da saúde, lida-se muito com a vida, mas também com a morte. Admiro muito.

redonda disse...

Se fosse comigo acho que também iria ficar a torcer por um final diferente...

Estudante disse...

Gaja Maria: isso é muito simpático da tua parte :)

redonda: :)

Lápis Roído disse...

Tenho um misto de três sentimentos nesta resposta: enfado pelo negativismo constante do teu colega, choque pela reacção divertida do staff médico quando mostraste a tua desilusão e alegria pela forma como reagiste. Destaco principalmente a tua reacção, que demonstra que não podes ser outra coisa na vida que não seja médica. Para ti, cada paciente que falece representa a perda de uma vida humana e não um número para as estatísticas. És grande e a tua nobreza de carácter só pode ser elogiada!

Teresa disse...

Desconhecia esses procedimentos.
Não tendo nada a ver, pareceu-me como aqueles filmes em que torcemos sempre pelo final feliz...

Estudante disse...

Lápis Roído: ora, o meu colega tem azar com os casos que apresenta :P e o staff médico riu-se, não pelo desfecho do doente, mas pela forma ingénua como eu soltei aquele "fogo!" ;) eu estou sempre à espera que as coisas acabem bem... os mais velhos têm a experiência de que isso nem sempre é assim. São mais realistas ;) eu não escrevi este post para demonstrar nada :) foi só porque o episódio teve uma certa piada... mas as reacções foram as contrárias ahaha :P

Teresa: mais ou menos :P

Zé do Pipo disse...

Esse teu colega é pior que o Nicholas Sparks: O personagem principal morre quase sempre e quase sempre de cancro.
O gajo é mais cancerígeno do que o tabaco eheheheh.

Estudante disse...

Zé do Pipo: ahah :P que horror! Coitado do rapaz...

Portuguesinha disse...

Ainda bem que deste um murro na mesa.
ainda bem!!

O inconformismo com uma realidade dura faz um bom médico - na minha singela opinião.

Haja alguém que se revolte com a morte.
Nas histórias não são esses os finais... Mas a vida não é feita de Dr. Houses.

misabe disse...

Eu sou uma pessoa impulsiva. Acho que muitas vezes a impulsividade nos torna mais genuínos mas, sinceramente, são mais as vezes em que me arrependo da minhas reações do que aquelas em que me congratulo. Apesar de trabalhar o meu autocontrolo há muitos anos, continuo a achar que um "Fogo!" nos torna mais gente e com menos maquilhagem social. Mas esta é necessária, obviamente!
Gosto muito de a ler, cara doutora :)

Estudante disse...

Portuguesinha: ups!, tinha-me escapado o teu comentário! Pois é, isto não é o Dr. House :P

misabe: sem dúvida que a impulsividade é mais comum nas pessoas genuínas :) (nem sei se existe naquelas que não o são...). Muito obrigada :D mas não precisas tratar-me por doutora ;)