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domingo, 22 de maio de 2016

Não tenho cara de médica

Não tenho cara de médica. Sou "a menina", "a enfermeira" (parece que as enfermeiras são sempre as mulheres mais novas e as médicas, as mulheres mais velhas...), "a estagiária". 
Não deixa de ser divertido que me achem com cara de "não médica". Nem sei exactamente, quais os requisitos de uma cara de médica.
Há doentes que inicialmente, me tratam por menina e depois, quando por algum motivo se dão conta de que sou a médica deles, corrigem muito aflitos o pronome e pedem desculpa. Não percebo porquê. Eu continuo a ser uma menina. O Mestrado não teve nenhum efeito colateral nessa parte.


Inté*


segunda-feira, 9 de março de 2015

Dizer a um doente que não há nada a fazer contra o cancro que o escolheu como vítima. Dizer-lhe que a doença está a avançar mais depressa do que os dias e que, até poderíamos tentar a quimio, mas que o melhor seria tratar os sintomas paliativamente e esperar... e ainda assim, termos a perfeita noção de que há uma parte daquela pessoa que temos à nossa frente que não compreende ou não quer acreditar no que está a ouvir. Então, questiona-nos acerca de cirurgias, de tratamentos que não a vão salvar... questiona tão sofregamente, tão alheia a tudo o que lhe está a ser dito, completamente inebriada pela esperança ou por um instinto primitivo de sobrevivência.
A certa altura, não consegui perceber se estava na presença de alguém na posse plena das suas capacidades ou na presença de um bichinho ferido que tentava, a todo o custo, fugir para longe...
 
Como nós ficamos diferentes quando temos a noção da nossa finitude. Julgamos ter plena consciência de que um dia nos vamos embora e que não vamos passar de uma história que um dia será esquecida... mas não é verdade. Nós vivemos com essa pequena sombra que paira sobre nós, mas que é tão discreta que, provavelmente, na maior parte das vezes nem nos damos conta da sua presença (e ainda bem que assim é!).
Enquanto vivemos somos eternos; somos um passado, um presente e, sobretudo, somos um futuro, um amontoado de sonhos e de desejos por realizar. Não imagino dor maior do que aquela de não poder planear a longo prazo, de saber que vamos ter menos tempo do que aquele que tínhamos previsto...
 
Como as coisas seriam diferentes se soubéssemos que expirávamos dentro de alguns meses. Eu tenho perfeita noção de que faria imensas coisas de forma diferente e, ainda assim, não sei se isso implicaria fazê-las de melhor forma; mas faria de forma diferente.
 
 
 
 
Inté*

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Uma menina na consulta

O outro dia entrou na consulta de Pediatria uma menina muito especial. Trazia duas trancinhas e vinha com o papá (papás, acompanhem os vossos filhotes ao médico, a sério... ser pai dá um charme!) e tinha um sorriso enorme! Tão grande que era!, muito aberto, daqueles sorrisos mesmo grandes, que só os mais pequeninos conseguem ter.

E rodopiou durante toda a consulta. Segura num só pézito, girava sobre si própria; e girava, e girava... ora para um lado, ora para o outro. E as trancinhas rodopiavam com ela, alguns cabelinhos já soltos de tantas voltas que dava. Tão bonita que estava! De vez em quando, lá soltava uma risada e quando perdia o equilíbrio, respondia às perguntas do Sr. Doutor, para retomar logo de seguida, aquela dança meio trôpega.

Não foi só mais uma menina - foi um dia de Primavera cheio de flores... e um gelado.




Inté*


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A vida numa UCI

Estou desde a semana passada a estagiar numa Unidade de Cuidados Intensivos. Devo dizer que, ao contrário do que eu imaginava, o ambiente até é bastante calmo. Não porque não ocorram muitas vezes situações emergentes ou stressantes mas porque todos os que ali trabalham reagem a esse stress de uma forma bastante calma. Não há corridas nem atropelamentos, nem material a ser atirado de um lado para o outro. O nosso médico disse-nos que a melhor forma de lidar com este tipo de situações é com calma. Calma não é obrigatoriamente "lentidão". É só (só?...) a capacidade de manter a racionalidade em situações que apelam fortemente ao nosso lado mais irracional e impulsivo.

Uma vez ouvi uma frase que dizia algo do género: "nenhuma situação é emergente a tal ponto de não nos permitir pensar pelo menos durante um minuto".

Mas hoje, desiludi-me. Porque a entubação dos doentes deve ser feita com o doente sedado e o doente não estava suficientemente sedado, porque há procedimentos invasivos que suscitam dor que, ao contrário do que muitos defendem, não desaparece totalmente com a sedação... e porque vi como o doente se contorcia com o incómodo daquilo que lhe faziam. Esta atitude de indiferença perante a dor infligida é bem capaz de ser a coisa que mais me revolta; porque há analgésicos, porque há maneiras de diminuir o sofrimento e porque nem sempre são implementadas porque "só demora um bocadinho...", "porque não custa nada". Mas enquanto dói, dói. E enquanto dói o tempo passa mais devagar. E é a tensão que aumenta e é o medo que aumenta sem necessidade nenhuma. E é uma pessoa que ali está a sentir-se cada vez mais vulnerável e doente.

E depois é presenciar a dicotomia entre o profissional que todos os dias procede assim, as conversas banais entre enfermeiros e médicos enquanto se pica o doente, se magoa (ainda que sem intenção)... uns riem outro não.

Eu não tenho por hábito dizer palavrões, mas hoje...


Foda-se.



Inté*

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

E porque sete semanas já foram...

E pronto. Foi-se o estágio em Cirurgia Geral. Sete semanas que tinham tudo para dar mal, afinal acabaram por se tornar no melhor período de estágio que já tive, a par com Urologia que também não me despertava grande interesse. Já viram como a vida pode ser irónica?

Agora os meus dias são passados no Serviço de Ginecologia e Obstetrícia que já não visitava há dois anos. Já não me lembrava como era ouvir o coração dos bebézinhos ainda por nascer na barriguinha das mamãs. Quem passar no corredor das consultas de Obstetrícia no timing certo, tem essa experiência encantadora de ouvir vários coraçõezinhos a bater em simultâneo (não subestimem os aparelhómetros que usamos para o efeito! Eles amplificam bastante os batimentos cardíacos!).

E sabem que mais? Eu que nunca tinha visto nascer ninguém, num só dia consegui ver três partos! Digo-vos de antemão que o parto propriamente dito não é bonito. Mas também não precisava de ser. O que o torna uma coisa verdadeiramente extraordinária é a probabilidade que acarreta de tudo correr mal - e isso raramente acontece - e a recuperação espontânea da mãe quando lhe apresentam o seu rebento.

Não sei qual dos dois o maior milagre, se o primeiro ou o segundo.



Inté*

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Simbiose

A mana da Estudante teve no outro dia a sua primeira experiência com um doente estrangeiro. O senhor, inglês mas residente em França, tinha vindo passar uns dias a Portugal e sentiu-se mal. Foi parar às Urgências. 

A certa altura, enquanto a mana recolhia a história clínica do senhor, pergunta-lhe:

- Mr. X, do you drink?

...

- I live in France!...


Genial esta percepção de que há coisas que só fazem sentido quando juntas, não acham?




Inté*

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ser ou não ser...

Um dos médicos oftalmologistas que nos dá aulas teve um doente daltónico.
 
 
Espanto nº1:
- era um doente daltónico adulto que nunca tinha reparado neste seu "pequeno" problema;
 
Espanto nº 2:
- trabalhava numa fábrica de tintas...
 
 
 
Inté*

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não me deste um beijinho...

Esta semana estive no Centro de Saúde. A maioria dos utentes são velhinhos e hipocondríacos, mas a manhã de quinta-feira é reservada aos mais pequeninos.
 
Quando nessa manhã cheguei ao consultório o médico ainda não estava. Contudo, já uma pequena flor corria pelos corredores aos saltinhos. Não devia ter um metro. Do alto dos seus quatro aninhos, olhava-me com aqueles olhinhos de curiosidade, de quem quer fazer uma série de perguntas. Meti-me com ela:
 
 
- Tens uma camisola toda gira!
- Não é uma camisola... é um vestido. E já viste o meu cabelo?
 
 
E lá rodopiou umas três vezes para que eu pudesse ver bem a indumentária e o penteado. Enquanto falava com ela,  lembrou-se que podíamos brincar às escondidas... e lá fui eu contar contra uma parede e esconder-me no consultório segundo as suas instruções.
 
 
- Escondes-te onde eu me escondi, está bem?
 
 
Quando se lembrou que podíamos brincar às apanhadas é que foi pior... Então, sugeri-lhe que fizéssemos um desenho. Enquanto desenhávamos com a minha lapiseira (foi uma grande desilusão para ela eu não ter lápis de cor) eu disse-lhe:
 
 
- É uma chatice estar à espera do Sr. Doutor, não é?
- Sim... sabes, eu gosto muito dele! E hoje tu vais para minha casa!...
 
 
E a certa altura, sem tirar os olhos dos grandes riscos que estava a fazer, disse-me assim:
 
 
- Tu não me deste um beijinho nem um "abaço"...
 
 
Derreti-me toda! Nunca me passaria pela cabeça abraçar os meninos que vêm à consulta... mas ela estava à espera que eu o fizesse. E provavelmente, já estaria à espera do abraço há muito tempo sem eu o saber...
 
 
 
 
 
Os mais pequeninos têm um raciocínio muito especial. Os grandes é que complicam tudo.
 
 
 
 
Inté*


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Um trapinho



As consultas de saúde infantil são, sem qualquer sombra de dúvida, aquelas de que eu gosto mais. No Centro de Saúde onde estou a estagiar, estas consultas são dadas à 4ª-feira, de maneira que ali a meio da semana tenho a sorte de estar com os mais piquenos.

Na semana passada, vimos um menino com cerca de dois anos que não estava especialmente feliz por ir ao srº doutor. Entre outras coisas, o médico perguntou à mãe se ainda usava chupeta ao que ela respondeu que não.

- Não Doutor, chupeta já não usa... anda é sempre com aquele trapito. Ninguém lho pode tirar...

Foi então que reparei num pedacinho de tecido, provavelmente de um casaco, já muito usado, que o pequenito segurava numa das mãozinhas. Eu já não me lembro como ele se chamava, mas cada vez que me lembro desse episódio, vem-me logo à cabeça a imagem do Charlie Brown...


Inté*

terça-feira, 22 de maio de 2012

Dia de doidos...

... literalmente.

Uma doente que vem pedir uma credencial. De dentro de um saco de papel, tira um envelope com o relatório de uma rectosigmoidoscopia e um frasquinho. E o que continha o frasquinho? A biópsia que lhe tinham feito... A senhora olhava para o frasquinho, virava-o e voltava a olhar com os olhos muito arregalados e com ar exageradamente intrigado. Mas que raio fazia ela com o décimo de pólipo que lhe retiraram? Cheguei a pensar em problemas de vinculação, mas pareceu-me pouco provável. Contudo, foi um momento com o seu "quê" de macabro...

Outro doente que vem para saber o resultado das análises e que é chamado à atenção para reduzir o consumo de álcool.

- Oh senhor Dr, mas eu não bebo muito...
- Oh amigo, se se quiser enganar a si mesmo tudo bem, a mim é que não me engana!
- É verdade! Só bebo meio litro por dia!

Nisto diz a mulher:

- "Atão" mas tu só contas com o último copo que bebes, é?!



Inté*

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Doentes difíceis

Ontem tivemos uma doente à qual eu diagnostiquei "refilite aguda". A refilite aguda não é propriamente uma doença grave para o doente em si, mas é extremamente desagradável para quem está em volta. Esta nossa doente respondia a tudo que não ou que sim, não se explicava e, claramente, estava ali contra vontade. Refilava, refilava...

A certa altura não me contive e comecei a rir-me. Sem dar nas vistas, claro. Tive receio de que se olhasse para mim, fosse capaz de me dar com a mala na cabeça, tal era o mau humor da senhora.



Inté*

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dialectos

Partes baixas e boca do corpo são duas das muitas expressões com que as senhoras denominam o seu trato genital. Às vezes não é muito fácil perceber ao que elas se referem e ainda é mais difícil conter uma gargalhada. Mas uma tossidela para o lado disfarça um riso mais teimoso.



Inté*

terça-feira, 13 de março de 2012

Tácticas de jogo

Nunca tinha reparado nesta, mas está bem pensada. Os doentes são audazes e para conseguirem adiantar a sua vez, às vezes, têm umas ideias do camandro.

Hoje, saímos de uma consulta e diz uma senhora ao nosso médico:

- Chamou-me?
- Não, ainda não chamei mais ninguém...
- Isto demora tanto! Daqui a nada vou-me embora!

Ora, esta ideia de se fazer de distraída e perguntar se seria a vez dela na esperança de ouvir um: "já agora entre" é muito similar àquela técnica de engate do "conheço-te de algum lado?" na medida em que um erro de cálculo propositadamente induzido pode levar a pessoa a ouvir o que quer.

Mas esta paciente foi ainda mais longe e entrou no campo da chantagem ameaçando ir-se embora (malévola, hein?).

Mas não resultou. A senhora esperou pela sua vez como toda a gente. É um aborrecimento estar ali à espera, eu compreendo. Mas tem de ser!...


Inté*

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Andas a ouvir muita música!

Muitos dos meu tutores são brasileiros. Um deles, um rapaz ainda novo e bem apessoado contou-nos ontem um episódio um tanto ou quanto caricato.

Diz ele que, no final de uma consulta se despediu amavelmente da paciente . Esta saiu e dois segundos depois reaparece na porta e com a parte da coreografia correspondente, diz:

- Ai se eu txi pego!

E voltou a desaparecer.
Há ou não há doentes descaradas?


Inté*

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ufa!

Terminei o estágio em Urologia. Acabou-se o acordar às 6h da matina. Contudo, ontem antes de nos virmos embora, ainda tivemos direito a uma pérola durante a consulta.

Marido e mulher entram no consultório. Eram claramente pessoas do campo, muito simples e acabrunhadas. Depois de esclarecidos os sintomas e as dúvidas, o médico pede ao doente que se deite e faz-lhe o toque rectal. Quanto termina, o paciente levanta-se num salto e diz:

- Fod*-se oh doutor! Essa foi de mestre!

Eu nem queria acreditar que ele tinha dito aquilo, mas como o médico ficou impávido e sereno, desconfio que ouve destas coisas muitas vezes.

Um bom fim-de-semana para vocês! No mínimo, espero que seja melhor que o meu... anatomia, a quanto obrigas!


Inté*

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Biópsia

Hoje assisti pela primeira vez à realização de uma biópsia à próstata. Na verdade, a pessoa é "picada" várias vezes para se conseguirem bons fragmentos. O nosso doente, um senhor na casa dos setenta, portou-se muito bem e não se queixou uma única vez!

À saída, advertiu-o o médico:

- Agora, durante cinco dias, tem de estar em repouso absoluto e nos dez dias seguintes não pode fazer esforços.

Depois acrescentou:

- E não pode ter relações sexuais durante um mês!

Ao que responde a esposa do paciente:

- Oh, Doutor, quanto a isso não se preocupe. Já cá não há nada disso!...



Inté*

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

E no hospital...

Ter doentes que dizem que "cagam como as cabras" é qualquer coisa de extraordinário...



Inté*

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Dona. M e o tabaco

Hoje a Dona M., na casa dos setenta, foi minha doente. Está internada no serviço de Gastro por um episódio de hemorragia alta. Entre muitas outras perguntas, perguntei-lhe se por acaso fumava ou tinha fumado.

- Alguma vez fumou Dona M.?
- Eu não! Credo! Olhe, na minha terra raparigas que fumassem eram todas umas p*tas!
- Sim... estou a ver.


Inté*

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Coração da Dona M.

Conheci a Dona M. ainda no Serviço de Cardiologia. A Dona M. sofria de uma bradicardia (o coração batia devagarinho) e por isso desmaiava muitas vezes.

- Dona M., posso ouvir o seu coraçãozinho?
- Oh, minha filha, então não pode? Não sei é se o vai ouvir... acho que ele já não está aí...

Os batimentos cardíacos da Dona M. eram muito fraquinhos, e quando lhe pus a mão sobre o peito, realmente não se sentia praticamente nenhum batimento. Mas o pulso, embora também um pouquinho apagado, sentia-se.

- Não diga isso Dona M., o seu coração tem de estar aí! Ele não ía fugir para lado nenhum...

Levei-lhe os dedos ao pulso contrário de maneira que a Dona M. pudesse averiguar que o coração não se tinha ido embora.

- Vê Dona M., ele está a bater!

Qual não é o meu espanto quando a Dona M. arregala muito olhos e esboça um sorriso do tamanho do Mundo! Estava mesmo convencida de que já não tinha coração...



Inté*

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Dona A.

A minha paciente teve alta ontem. Na verdade, a nota de alta já tinha sido escrita há uma semana, mas a dona A. não se encontrava em condições de voltar para casa, uma vez que não tinha ninguém que pudesse cuidar dela e do marido. A solução que encontraram foi levá-la para um Lar a uma centena de quilómetros de casa. Tenho o triste pressentimento de que a dona A. vai ficar mais doente agora que está longe do marido e das coisinhas dela.

"Olhe minha querida, nunca pensei que viesse a ter uma velhice tão triste!..."

No penúltimo dia fiz-lhe uma rosa de papel e ofereci-lha. Infelizmente, no dia em que foi embora já não pude despedir-me dela. Espero que a tratem bem e que regresse a casa brevemente.


Inté*