Parece-me incoerente que, numa aula em que o professor apregoe uma relação de maior proximidade com o doente, insista em tratar-nos por "clínicos". Clínico soa-me mal. Não sei bem o que significa e transmite-me uma ideia de uma pessoa distante e fria. Já por si, a expressão "Doutor" tem qualquer coisa de snobe e superior e anula o carácter humano da profissão médica. Além disso, qualquer um neste país é Doutor e por isso não faço questão que me tratem assim na minha futura profissão.
Podem chamar-me médica. "Entre que a médica está à sua espera". Parece-me bem.
Lembro-me que uma vez, numa iniciativa da nossa faculdade, simulámos consultas com crianças e os seus bonecos, numa tentativa de desconstruir o medo das batas brancas. Apareceu-me um menino, com umas grandes bochechinhas e um coelho já muito velhinho, coitado, com os bigodes pela metade e todo desbotado. Quando se dirigiu a mim disse:
"Oh médica, dói-lhe a barriga..."
E eu, toda sensível, senti uma ternura por ele, uma alegria tão grande que quase me caiu uma lagriminha. Por isso, porquê chamarem-nos clínicos? A maioria das pessoas nem associa isso à profissão médica...
Inté*